Retornando do Carnaval!
Cansado? Descansado? Aproveitou para cair no samba? Incendiou no axé? Ou deitou e dormiu todo o feriadão carnavalesco? O que importa é que você está voltando. E voltando para a realidade alegre ou dolorida do dia a dia. Se você passou esses dias fora de casa em qualquer lugar de Deus e ao adentrar sua residência, primeiro agradeça aos seus anjos de guarda por ter sobrevivido aos percalços da estrada. Conseguiu manter a sua carteira de motorista após cruzar por dezenas de pardais sorrateiros e vampiros? Livrou-se das imprudências ao volante de alcoolizados e motoristas citadinos e de finais de semana? Se as respostas forem positivas já está levando vantagem.
Ao tentar entrar no centro de Viamão você encontrará os mesmos acessos esburacados. Com os velhos buracos a lhe cumprimentar, pois até já há uma sincronia entre o buraco e o motorista que sempre cai dentro dele, pois não há alternativa. Isso é assim carnaval após carnaval. Mas um dia alguma autoridade responsável se tomará de um surto de respeito ao público, ao cidadão extorquido em taxas e impostos, e pavimentará decentemente as estradas e os acessos ao centro das cidades.
Lave e guarde a fantasia, pois uma reforma com algumas lantejoulas e umas penas estrategicamente colocadas significarão uma nova fantasia no carná seguinte. Tenho um amigo que cada ano ele faz “a prova dos 5”, “a prova dos 6”, e assim por diante. Explica-se: o 5 ou 6 representa o número de anos que a fantasia é transformada. Esse ano ele teve uma idéia fantástica: trocou de fantasia com o cunhadão.
Afinal cunhado não é só para tomar a cerveja da gente, ocupar a rede na hora da soneca, comer a melhor parte da costela e ainda dormir com a tua irmã. Ainda descubro alguma finalidade para essa criatura que se enfiou na nossa família. – dizia ele, entre lamúrias.
Gaúcho no carnaval vai para a praia. Certo? Quase. Muitos carnavalescos fazem o maior empenho em mandar a mulher, os filhos, os cachorros, a sogra e o resto da patota para a orla e eles ficarão “sofrendo em trabalho extra até no domingo”. Então, no domingo próximo do almoço, a criatura cansada, extenuada de tanto trabalhar, vai chegando com muita saudade da “patroa e dos filhotes”. E põe teatro nisso!
A “patroa” que já está mais escaldada e andou conferindo os bailes na televisão e gastou uns dez cartões de celular checando onde o “trabalhador” estava, logo após o almoço leva o “gatão para o berço” e vai conferir o apetite e o desempenho sexual após vários dias de “saudade”. Para sorte do “trabalhador” e para sua esperteza já deve ter tomado um desses ‘viagras’ que andam por aí. E como a casa já deve estar entulhada de parentes, amigos de parentes e amigos dos amigos de algum parente, o embate deve ser silencioso e rápido. Tipo assim: atividade de ninja dos lençóis.
Se a criatura até consegue enrolar a “patroa”, jamais conseguirá enganar a sogra. Pois sogra é o efeito colateral do casamento. Exceções à parte. Muitas exceções!
A situação pode ficar dramática quando a sogra descobre um átomo de purpurina no “trabalhador”. Após o espasmo anal inicial e aquela onda de suor gelado, o suor da morte, o cara vem com a resposta decorada:
– Vai ver que foi aquela criançada fazendo fuleria – inicia a desculpa – no posto de gasolina quando parei para abastecer ali no Texacão. Os pais não botam freio nessas crias que ficam atirando coisas em todo mundo. – completa com os olhos pra lá de arregalados.
O assunto não dá para esticar muito, pois já estão se dividindo para jogar uma pelada na beira-mar. O “trabalhador” não consegue jogar mais de cinco minutos e alega uma “lesão no joelho desde o tempo do quartel” para deitar na areia e “serrar um toco”. Afinal está com as pernas bambas de tantas noites insones “trabalhando em prol da família”. Ainda canta de galo:
– Se político trabalhasse tanto que nem eu, o Brasil não estava nessa garapa! – arremata.
E agora o Brasil deve começar a andar. Deve, pois a carnaval ficou nas belas ou sofridas lembranças. Feliz retorno.