3 Mar 31 – Bodegueiro, sim senhor!
Bodegueiro, sim senhor!
Chamadas de alambiques ou simplesmente de bodegas, traduzem o ancestral bolicho do gaúcho. Alguns criam uma plumagem e passam a chamarem-se mercearias ou supermercados. Em outras épocas eram também armazém de secos e molhados. Secos e molhados? Isso sempre me causou estranheza e perguntava-me o que seriam realmente os tais de “molhados”. O resumo é que vendem um pouco de quase tudo e principalmente uma cachaça azulzinha de Santo Antônio. Alguns faziam a “multiplicação” da cachaça.
– Aí esparramei todo aquele dinheiro em cima da mesa do doutor fulano. Eram muitos anos trabalhando e guardando direto. No verão dormia no máximo umas duas horas por noite. Toda a família pegando junto. To cheio de marcas na barriga da boca do forno fazendo pão pra minha bodega e vendendo pras outras. Guardava o dinheiro mocozado, pois vai aparecer um vigário do Collor de novo e a gente perde tudo. Dá uma dor entregar todo aquele dinheiro, mais foi assim que comprei a primeira terrinha. Já to com mais de cem hectares e vendendo e comprando gado e agora depois deste verão to com outra graninha pra comprar um pedaço do meu vizinho. Saí do nada. Meu pai também nunca teve nada, mas aí botou a bodeguinha e o resto foi trabalho e trabalho e muita economia. Comprei um trator melhor e plantei pasto pro gado. Fiz um galpão pra gente ficar lá. Botei uma churrasqueira e agora no inverno dá uma folga pra comer uma carnezinha com a família e com os amigos. – contava-me esse cliente e amigo.
O relato é similar ao de vários cidadãos que estão arriscando sua saúde e suas vidas como empreendedores em negócios a margem da RS 040. A imensa maioria saiu do que eles chamam de “nada”. Empregados de fazendas, cobradores de ônibus da Palmares e basicamente alfabetizados. A ilusão dos altos juros da inflação e da poupança fez com que diversas famílias rurais vendessem suas pequenas propriedades para “aplicar” no sonho dourado do ganho sem trabalho. Logo o sonho virou pesadelo e vegetam nas periferias com uma aposentadoria do Fundo Rural – sem terra e sem poupança. Outras identidades os aproximam – ninguém ousa pensar em ficar encostado num alambrado de beira de estrada e tendo uma lona preta por teto. Ninguém quer depender do governo. Ninguém espera acontecer, todos buscam pelo trabalho suado e sofrido com a integração da família o crescimento econômico e a felicidade crescente. Todos têm consciência que estão sustentando exércitos de aproveitadores de toda ordem e cor política e revoltam-se. Todos têm medo da (IN) justiça trabalhista. Todos teriam mais empregados e ajudariam mais pessoas não fosse esse temor e os abusivos impostos.
Esses são os cidadãos de uma nova classe média que quer seus filhos estudando. Vários tem filhos com formação universitária outros com curso técnico da lendária ETA – Escola Técnica de Agricultura – estão retornando aos lares e expandindo os negócios que os pais criaram. Há uma crescente consciência do cidadão que trabalha, seja na bodega de beira de estrada, seja no escritório refrigerado, seja no lombo do trator de que o seu trabalhos não pode ser surrupiado pelo bandido armado, pelo marginal engravatado ou pela autoridade que vive num mundo irreal para o restos dos mortais trabalhadores. Felizmente esse grupo está crescendo, muito se deve ao Real estabilizado desses últimos vinte anos (quase). Ainda são invisíveis para o olhar desatento, mas o vírus da liberdade, da livre iniciativa e da felicidade são altamente contaminantes. E viva o bodegueiro! E viva a bodega! Feliz Páscoa!