Heróis Anônimos! – Outra Lenda Praiana – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão – 17 Março 2010
Heróis Anônimos! – Outra Lenda Praiana?
– Edinho! – chamou-me um amigo durante uma festa de casamento. – Que achaste do sucedido novamente com a dupla de barbeiros? – perguntou-me interrompendo o abraço no noivo.
– Espero que nada de ruim, mas estou chegando agora e passei alguns fora da grande área (Viamão City) e não marquei nem vi nenhum dos golos do período. – disse-lhe.
– Vamos sentar ali que vou te contar tudinho! – puxando-me pelo braço com o olhar estupefato da Cledi. – Garçom traz uma Brahma Extra pra mim e uma Coca Zero pro doutor! – acenou para o garçom espavorido no meio da multidão que chega derramando bicas de suor. – Eu vou te contar e tu conta pro povo do Opinião com aquele jeito legal das tuas histórias (-Algo meio romanceado. – Nota do Editor).
Relato.
Um alucinante Sandero STEPWAY estaciona nas areias de Pinhal Beach. Descem os barbeiros e suas amadas “negas veias”. E baixam a tralha para um churrasco em local mais ermo e assim evitar o fã-clube e os clientes sem simancol – Sai um cabelo hoje? – sempre pergunta algum mais abusado. Sacos de carvão, espetos, mesa, cadeiras, isopor com preciosidades importadas e geladas, churrasqueira portátil (micro-tonel cortado ao meio) e uma costela de novilho precoce uruguaio. Ah! E uma picanha de babar na fronha e quase morrer na rede escutando Roberto Carlos. Dupla altamente organizada, assim como Pelé-Coutinho ou Batman-Robin. Tudo funciona por música e só no canto do olho. Quando estavam armando um toldo escutaram: – Socuerro! Socuerro! Socuerro! – Era um argentino gordo berrando alucinado na beira do mar. – Salvem mi madre e mi hija!
O que aconteceu? Pois a guria castelhana caiu num buraco e não conseguia sair pelo repuxo. A velha mãe do tupamaro que estava tomando banho de assento e com o fundilho cheio de tatuíras foi socorrer a moça. E o repuxo levou as duas. Dois bocas-brabas já no trago estavam passando uma redinha pelos buracos da praia e com o griteiro soltaram a rede e só se enxergavam os calcanhares batendo nas bundas e levantando areia na direção do cômoro. A desgraceira estava feita. A mulher do gordo desmaia na beira do mar. Isto tudo e mais ainda numa fração de segundos. Os salva-vidas estavam distantes. Outros praianos acudiram. Alguns ligando pro 190 e outros tirando fotos da desgraça anunciada. Para sorte deles ali estavam os homens certos na hora certa. Para piorar a rede enrolou-se nelas.
– Colega! Pega a velha gorda que eu pego a guria bonita! – rosnou ferozmente um dos barbeiros que com olhos treinados avaliou a situação mortal. E como sempre deixa o mais pesado para o colega.
A cena a seguir é digna de filme do James Bond 007. “Colega” abre sua discreta pochete, que na realidade é um cinto de mil-e-uma utilidades. Saca da navalha Solingen e coloca-a entre os dentes. O colega saca da tesoura e coloca-a entre os dentes também. Como dois coriscos jogam-se no oceano faminto de vidas humanas. Os dois barbeiros aparentemente franzinos são máquinas de músculos treinados para os combates da vida, do lençol ao tatame. Um deles – faixa preta de judô Kamikaze. O outro – mestre em capoeira Olodum. Ambos, especialistas em sobrevivência e em como se dar bem na vida. São os amigos que todos deveriam ter – especiais.
Vigorosas braçadas. Furando ondas. Atingiram os alvos, digo, as afogadas. Mergulhando e subindo a superfície soltaram-nas da teia mortal da rede dos bebuns com cortes de navalha e tesoura. E foram rebocando-as e acompanhando o repuxo até conseguirem tomar pé e daí ajudados pela platéia que já ovacionava em palmas e gritos. E completaram com respiração boca-boca, massagem cardíaca, etc. Saíram uns dois baldes de água de dentro da velha gorda que não queria parar de fazer a respiração boca-a-boca. A jovem e bela sereia argentina havia perdido uma parte do biquíni e foi prudentemente coberta com a camiseta do seu intrépido salvador.
– Soy primo do Maradona! Gracias hermanos! Muchas gracias! – gritava o argentino agradecido e tascou um beijo num dos heróis salvadores. Aqui uma controvérsia – alega um espectador que foi beijo tipo Maradona e na boca…
Concluindo. Desta vez o povo estava com mais de mil assinaturas num abaixo-assinado para o Prefeito Alex dar-lhes um Diploma de Heróis. Não aceitaram. Eles, como sempre, preferem o anonimato e a satisfação do dever cumprido.