O Povo da Rua! – por Edson Olimpio Silva de Oliveira – Jornal Opinião de Viamão – 05 Maio 2010

5 Mai 05 – O Povo da Rua – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

O Povo da Rua!

Ou seria um título melhor – Os Povos das Ruas? Apenas para efeito e consideração prática temos dois: o povo de rua que tem pátria, isto é, tem casa ou toca-lar para onde retornar. E o povo da rua que não tem pátria, sem moradia, zumbis ou párias da sociedade que em desabalada carreira passa a sua volta, fechando as narinas para seu odor de morte anunciada ou para nossos monumentais ungidos pelo poder das urnas que o usa como asfalto na estrada pedagiada e com sobrepreço de suas carreiras.

No povo da rua com pátria encontram-se os fileiros. Esse bando de criaturas que ou ama ou odeia filas, mas elas sempre fazem parte das suas vidas. Filas ou bichas no gauchês. Fila no caixa do mercado – gigantescas no Big e no Nacional, filas nos caixas de bancos, se tem caixa tem fila, fila no cinema, fila no trânsito, fila no banheiro, fila no motel… Centenas! E a fulminante e mortal fila para atendimento na saúde. Emergências superlotadas, congestionamento de ambulâncias e macas nos corredores. Fila para conseguir um leito ou para receber remédio e transplante. E as filas de festas – ingressos para carnaval, jogos de futebol e outras relíquias. Esse pessoal cria know-how especializando-se para cada situação. Cadeiras de praia, garrafas térmicas, mijador (recipientes para urinar na fila), chimarrão, comida variada, som, celular carregado e muito papo para rolar com os vizinhos. Acrescentam-se os vendedores de filas, como a posição na fila, fazer alguma propaganda e aplicar algum golpe nos espertos de plantão.

E o povo sem pátria, sem lenço e sem documento, como a música famosa que nasce, resiste, sobrevive e morre nas ruas. Seres encardidos, sombrios. Olhar feroz, olhar de cão pidão ou olhar de peixe morto – opaco, perdido, terminal, sem qualquer horizonte, afogado na dor ou no vício. Existe vício sem dor? Claro que não, perdoem a redundância. Uma escada, um canto de parede, uma marquise, um viaduto, um banco qualquer, árvores quando existiam, portaria de igreja, um jornal ou caixas de papelão. Qualquer fantasmagórico teto ou a mortal cobertura do álcool e do crack. A fuga dos albergues ou de qualquer instituição que crie disciplina e cerceie a liberdade de quem não tem liberdade alguma. Prisioneiros da mente doente, em grades permanentes das vidas do futuro pelo minuto seguinte. A vida nos bueiros, literalmente. Essa legião é alargada e engrossada nas suas fileiras pela droga que traz o inferno para corpos degradados e almas sugadas, flageladas no poço da maldição. Muitos já tiveram uma pátria, uma família, pessoas que os amavam e um trabalho. E agora? Um destino inexorável onde jamais a morte liberta. Ao contrário, serão maiores as dores e o sofrimento. Raciocinemos sem romantismo!

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