5 Mai 23 – Grossura – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Grossura!
– Série Humor ainda é um bom remédio! –
– É mais grosso que dedo destroncado! Ou ainda: – Não é mais grosso por falta de espaço! A sabedoria popular gauchesca é repleta desses termos que retratam a falta de uma postura mais educada, mais refinada, mais condizente com o ambiente ou com a posição social da criatura. – Estamos na época em que tudo pode pra quem se sacode! – Outro ditado querendo liberar o que deveria ser privado.
Os novos ricos ou os emergentes que estão galgando a pirâmide social são exemplares nessas gafes ou despropósitos. Alguém consegue imaginar uma guerra de miolo de pão numa janta do Lions com médicos jogando as bolas de massa socadas na cabeça dos outros? Há testemunhas vivas. Ou a criatura limpando as unhas com o pálido? Às vezes fica difícil saber onde termina a grossura e começa o relaxamento.
– Tá com uns pilas no bolso e já acha que é gente! – diz outra sabedoria popular gaudéria. Verdade. Os novos ricos são desvairados (alguns mermão!) e falar alto e gargalhar em recinto público parece normal em suas cabeças adornadas. No reino da cabeçolândia as pessoas não conseguem fazer uma refeição e conversar sem berrar e saírem com os tímpanos doloridos. Tem um restaurante praiano que a comida é boa em qualidade e variedade. Um ambiente amplo e sem ostentação, mas a grossura começa pelo garçom que atende com um palito entre os dentes. E se quiseres fazer uma refeição mais civilizada, pois em praia as opções são escassas, chegue antes das 11,30h, pois depois é “um pega pra capar”. Como um enxame de gafanhotos, atiram-se no bufê livre. Criaturas enchem os pratos como se fosse a última ceia. Morros imensos, caindo rodelas de tomate e alface pelo caminho. Ainda pegam um pratinho auxiliar e colocam pilhas de pastéis e outros etecéteras. Tal qual uma briga de foice no escuro, é garfo e faca brandidos de fazer inveja às guerras farroupilhas. E ainda escutas, gordas imensas (perdão pela redundância) explicarem para outras no mesmo descaminho que começaram “um regime”. Filho de emergente corre desatinado entre as mesas, chora e ri e atira-se no chão sob a complacência dos pais engalfinhados na bóia. Só chamando assim mesmo. Uma selva! Muitos jamais comem frutas e são raros os demais vegetais em suas casas, mas no restaurante misturam tudo no mesmo prato: – É muito bom pra saúde! – escutas.
A batalha final trava-se nos doces. – Credo, olha só ela se serve de doce no prato de comida! – diz ferozmente cuspindo sementes de melancia que ricocheteiam no prato e caem na mesa ao lado. – Que coisa feia, pra isso tem os pratinhos! – completa. Enquanto o casal acaba com a Pepsi 2L, empurram os pratos e a tolha para o centro da mesa. Tapam a boca para arrotar. Escondem a boca, jamais o cheiro e o barulho. Vem a sessão de palitamento de dentes enquanto o café preto geralmente frio e doce escorrega goela abaixo. Completando ele pergunta sinistramente: – Deu pra comer! – ao que ela responde com sorriso maroto do implante dentário: – Hehehehe, agora comi sem dar! De noite quem sabe…