6 Jun 30 – Pau de Sebo – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Pau de Sebo!
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unho é um mês com marcas importantes. Senão vejamos: entrada do Inverno e com ele a escassez de banhos para muitos até a Primavera. Outra? – Festa de São João. Gente muito importante como o antigo companheiro de motociclismo, o Zavarize, e eu somos deste mês. O que, algum leitor não acha isso muito importante? Mas fiquemos na Festa de São João para evitar controvérsias. Nós guris de uma época remota e distante ansiávamos pelas fogueiras e todos os folguedos associados. Os festejos de São João não possuíam o brilho da Festa de Nossa Senhora da Conceição no oito de dezembro. Mas eram diferentes na sua essência e não tinham tanto apelo ou cunho religioso.
A maior fogueira do centro era na Praça da Igreja. Um poste fincado e revestido com carroças de achas de lenha seca. Muitos pneus. E toda uma decoração. O armazém do Itamar Carvalho ainda ficava naquela esquina que hoje é uma livraria evangélica. Era um dos maiores colaboradores e apoiadores da festa e fazia vistas grossas para a gurizada que enchia os bolsos com amendoins de suas grandes tulhas. Pinhão, pipoca e quentão. E batata doce cozida no braseiro da fogueira. As famílias se reuniam em volta da grande estrutura esperando o especial momento de acender o fogo. Uma grande fogueira também era uma obra de engenharia para construir e destruir, evitando acidentes.
Simpatias mil. Coisas de moças? Sim, isso era uma norma numa sociedade que estaria fadada e taxada de solteirona quem passasse dos vinte anos solteira. Elas colocavam claras de ovo em copos de água e deixavam ao relento na fria noite esperando que aparecesse uma imagem de altar ou igreja. Facas cravadas em bananeiras. Tinta derramada num papel de carta dobrado e colocado sob o travesseiro da ansiosa guria. Nomes de rapazes escritos em pedaços de papel e colocados na Igreja.
Traque e cabeça de negro – pequenas e grandes bombas. Foguetório. Bombas e bombinhas sob latas de leite Ninho. A explosão fazia a lata voar às alturas. Havia ainda algum alucinado que descarregava o revólver no quintal de casa. Alguém se explodia? Certamente. Assim como sempre tinha alguém queimado pulando as fogueiras ou assando batatas e pinhões. Coisas primitivas? Talvez. Seria assim que hoje somos mais evoluídos já que essas práticas estão em crescente desuso pelas terras setembrinas?
Havia grandes fogueiras na Lomba da Tarumã, no Matadouro dos Pinto e talvez a maior de todos fosse a do Novo Lar de Menores. Uma gigantesca festa, maior a cada ano. O pessoal mais abonado embarcava em seus carros e iam num périplo pelas outras festas do município após queimar a sua fogueira. Época de granjear votos e simpatias para os eternos políticos.
E o pau de sebo? O atilado leitor já deve estar ansioso sobre o título desta coluna. Pau de sebo ou pau ensebado era um poste ou mastro de madeira, descascado no capricho e geralmente guardado na garagem da prefeitura de um ano para o outro. Cravado próximo à fogueira. Havia um aqui na Praça da Prefeitura (na época era somente uma praça sem a prefeitura) entre a pira da pátria e a borracheira. Alto! Sei lá, talvez uns 7 metros. Liso e ensebado. Alguns com parafina. Outros com sebo de ovelha. Tarefa difícil e que denegria o sujeito – ensebar o pau! Designava-se um funcionário da prefeitura ou algum crente pagando promessa. Qual promessa? A resposta deve ser invasão de privacidade. Com auxílio de uma escada colocava-se um prêmio no topo do pau de sebo. Dinheiro por exemplo. Ou um almoço na Petisqueira ou uma chuleta no Bar do Paulo. As criaturas deveriam escalar o mastro até o topo para ganhar o galardão. E havia quem tentasse. E tentasse. E tentasse. Alguma fera vencia. Geralmente alguém que em época de circo tomava cerveja no picadeiro com o leão.
Memórias de um tempo tão antigo que diminuem dia a dia as testemunhas vivas e com memória efetiva!