O Mistério das Aranhas de Itapuã! – Parte 3 – por Edson Olimpio Silva de Oliveira – Jornal Opinião – 21 Julho 2010

7 Jul 21 – O Mistério das Aranhas de Itapuã – Parte 3 – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

O Mistério das Aranhas de Itapuã! – Parte 3

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onta-se que na metade inicial da década de 1970, uma carga de dinamite movimentou um grande bloco de granito. Quando a poeira acomodou-se na destruída vegetação e nas narinas dos trabalhadores, seus olhos visualizaram uma gruta ou uma caverna ao pé da fenda. Logo a noite apresentou-se e foram acomodar-se em torno do fogo de chão com uma lona suja e puída por teto. Uma estranha angústia ou um temor inexplicável invadia-lhes os corpos. Tal como um maligno pressentimento. O guisado de charque com arroz estava abandonado na panela de ferro vestida de negra fuligem. A fome desaparecera por completo. Somente a cachaça trazia algum conforto. Falso conforto.

– Que barulho foi esse o Zé?

– Devem ser os bugios?

– Mas por que desse griteiro todo do bicharedo?

– Mário solta o Tisnado! Solta Mário. – Tisnado era o nome de um cão mestiço e muito feroz do companheiro Mário.

                   O cão latia e babava ferozmente como se algo de maligno espreitasse o acampamento de seu dono e amigo. Milênios de amizade entre cão e homem faziam-no enfurecer-se contra o desconhecido. Liberado da corrente, o valente cão invadiu a escuridão para nunca mais retornar apesar dos assovios ansiosos do dono. Em pouco tempo latidos abafados deixaram de ecoar e o alarido dos bugios deu lugar a um silêncio sepulcral. Os homens em pavor jogaram toda a lenha e madeira disponível no fogo e uma enorme fogueira trouxe-lhes um pouco mais de coragem… Ou de alívio. Abraçados em prece rogavam que Nossa Senhora poupasse suas miseráveis vidas e que pudessem retornar para suas casas. A noite foi longa. Tão longa quanto as intermináveis noites nos primórdios da humanidade quando o homem era caça e não caçador.

Armados de suas ferramentas de trabalho, os homens com marretas e barras de ferro sentiam-se mais protegidos com o enorme sol amarelo embrenhando-se pelas fendas das rochas e limpando o suor noturno das folhas das árvores. Escutava-se o grito dos bugios ao longe.

– Como é que uma manhã não tem cheiro de manhã? – sussurrou um deles.

– Tisnado! Fiuuuu! Fiiiuuuu! – o dono do cão assoviava chamando seu amigo. Eis que encontram o cão. Jazia com a garganta rasgada por garras de aço e o sangue do animal já servia de comida para as formigas e as varejeiras. As moscas da morte cintilavam suas asas esverdeadas num macabro bailado sobre o cão dilacerado. O homem embrutecido pela dureza de uma vida de privações e desgostos lançou-se de joelhos ao solo com as mãos na cabeça do verdadeiro amigo. As lágrimas jorraram de seus olhos deixando sulcos na face enrugada e coberta de areia e fuligem. Que ser havia matado um cão mateiro de avantajada compleição?

 

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