O Mistério das Aranhas de Itapuã e a Negra das Aranhas! – por Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião – 04 Agosto 2010

8 Ago 04 – As Aranhas de Itapuã – Parte 5 – Crônicas e Agudas – Jornal Opinião

A Negra das Aranhas! Parte 5

Mitos e Verdades de O Mistério das Aranhas de Itapuã –

U

ma Negra Mina – balbuciado desafiadoramente por algum negro sem temor da própria existência –  de beleza similar às deusas de sonhos mitológicos acompanhava o Capitão Cypriano desde a sua descida de São Paulo. Como uma mulher assim permanecia entre homens de anseios primitivos e brutalidade diária? Ainda mais uma negra em plena escravidão? Em manuscritos encontrados numa cripta perdida de Buenos Aires o Governador Ceballos faz menção a Negra das Aranhas! A poderosa Igreja Católica deve ter varrido qualquer nota sobre ela. Assim como os senhores de escravos e poderosos donos das charqueadas impedindo qualquer sombra de rebeldia ou ilusão de liberdade de “suas propriedades negras”. O lendário Manoel Padeiro, o Zumbi dos Palmares do maior quilombo dos pampas, talvez acalentasse o devaneio de uma deusa ancestral tomasse partido de humanos escravos. E somente Cypriano falava e raramente com ela. Sua barraca sempre afastada do acampamento era temerosamente respeitada por homens e feras. Após cada batalha vencida, alguns prisioneiros em melhor estado geral eram entregues a bela de ébano. Seu destino seria pior do que mil mortes e suas almas jamais encontrariam descanso. Seres dilacerados e sugados eram esquecidos nas trilhas perdidas. Lendas horripilantes eram contadas ao pé do ouvido dos combatentes nas noites em que o medo da Negra Mina era maior do que qualquer temor dos espanhóis. Esses ferozes guerrilheiros lutavam por sua pátria e por suas vidas sentindo um misto de proteção e medo da Negra das Aranhas.

Somente algum enlouquecido pela voragem do sexo ousava erguer os olhos para ela. Sabiam de histórias de homens levados aos maiores prazeres do sexo por essa fêmea fascinante e poderosa, mas que jamais permitia que seus machos retornassem ao convívio da humanidade. Para tudo há um preço! O preço do amor frenético e bestial com um ser parido das entranhas do inferno é a morte e a alma eternamente em sofrimento.

Num feroz embate na região da Encruzilhada do Duro (hoje Canguçu) Cypriano foi gravemente ferido por um petardo de artilharia inimiga. Desenganado pelo soldado enfermeiro dos Dragões de Rio Pardo, agonizava sob um toldo de couro de gado chimarrão. Eis que a Negra Mina, como se flutuasse na escuridão, surge ao seu lado. A um pequeno gesto de mão, os homens afastam-se para dentro do matagal. Urros inumanos varavam a noite que como acompanhada do temor de deuses ancestrais trovejava e riscava o firmamento com raios e estrondos de mandados. A chuva fina e gélida lambendo as feridas da batalha. Logo silêncio. Silêncio sepulcral. Timidamente, os olhos buscavam varar o breu em busca de algum sinal do capitão. Esperam os primeiros lampejos do amanhecer. Chegam-se e encontram-no dormindo tranquilamente coberto por uma manta. De seu peito rasgado vertia uma substância esverdeada e viscosa. Os bordos da grande ferida estavam ancorados por grampos negros como ferrões de algum animal. – Como de aranhas! – contaram. Poucos dias seguintes o capitão montava a cavalo com liberdade e desenvoltura. O líquido esverdeado levou vários dias para desaparecer em manchas das roupas. Em algumas semanas, somente uma velha cicatriz marcava o peito do intrépido guerreiro.

 

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