Quando a Com ida não é o único Alimento! – por Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião – 04 Setembro 2010

9 Set 04 – Quando a Comida Não é o Único Alimento! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Quando a Comida Não é o Único Alimento!

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recisamos da comida, como alimento, para viver. No entanto, precisamos do amor e do convívio afetivo para vivermos melhor e sermos pessoas melhores. Nada disso é novidade e está no contexto de todas as obras de autoajuda e de cunho psicológico. Há poucos anos as mães preocupavam-se e angustiavam-se nos consultórios porque seus filhos comiam menos do que elas acreditavam deveriam comer, principalmente quando eram criados com mamadeiras pela impossibilidade do leite materno. Aqui no nosso gauchismo denominavam-se guachos (guaxos) em alusão aos animais criados com mamadeiras.

Os bebês eram sadios se estampassem a imagem de Bebê Johnson’s – gordinhos e farináceos! Curiosamente não convivíamos com esta epidemia de obesidade. Esses acordes iniciais são para falarmos da crescente rotina de comer fora de casa ou comer em restaurantes ou nos marmitex em algum local de trabalho. Peço que se dispam das defesas e justificativas e dos porquês vivem e fazem assim – comer fora. A mulher dentro do lar como mãe e esposa foi a coluna mestre da humanidade por muitos dezenas de milênios. Essa mulher buscou outros horizontes. Desfaz-se a imagem interior e ancestral do homem indo à luta ou a caça para buscar alimentos e da mulher cuidando da prole e alimentando-os. Aqui também está muito do nascedouro e da vertente do homem que não tem para onde voltar, nem para alimentar e nem para defender. Menos para sexo, sim, pois o sexo deixou de ser conquistado. O mesmo para a mulher que perdeu o protetor e caçador.

Quando a caverna deixou de ser a caverna, o lar começou a fragmentar-se – quando algo se quebra qual o som? Poder ser Crack! Terrível paralelo. A família perdeu seus vínculos e sentimentos, como a gratidão, que não nascem em restaurantes, pubs ou fast-foods. O casal e seus filhos, irmãos e suas famílias e os idosos estavam em volta de uma fogueira num mundo repleto de predadores animais e humanos insipientes. A fogueira trazia calor, luz e proteção e também um canal aberto com o mundo espiritual. A TV junto às refeições traz ou arranca de nossa memória primitiva esses sentimentos que para a imensa maioria dos que caminham e deliberam em duas patas são ausentes. E a TV traz-nos ídolos e divindades até perniciosas.

Crianças nas creches e nas escolinhas. Filhos nas escolas. Pai e mãe trabalhando na ânsia de ter mais e de dar mais aos seus filhos. “Precisamos dar tudo aquilo que eles precisam ou que não tivemos!” – ouve-se. Aviso novamente que retirem suas couraças protetoras e suas defesas, não estamos acusando ninguém. Estamos tentando tomar consciência de algumas das facetas desse prisma fantástico que é a nossa existência. O ato de cozinhar foi desaprendido e para muitas mulheres é no mínimo desnecessário quando não ultrajante. A família deixou de cozinhar e comer junto. A paz e o amor do fazer e do comer em família custam tempo e dinheiro. Comer fora é mais barato. Ter um ou uma amante é mais econômico do que ter esposo ou esposa. Comer em restaurante não tem nem louça suja para lavar. Fazer sexo e depois do banho voltar à vida rotineira sem as preocupações de contas, casa, filhos e outras atribulações é muito melhor e mais econômico?

Espero que não entendam como comer em casa seja reunir os amigos e a tribo e fazer um churrasco com um monte de caras afogados na cerveja (alguns no pó!), uma gritaria infernal e falando mal de uns e outros. Isso é qualquer coisa menos uma cerimônia de amizade, compreensão, disciplina, convivência afetiva…

Observem o avassalador crescimento de cursos de culinária e programas de cozinheiros em toda a TV mundial. Isso também é globalização. Isso desperta o nosso inconsciente coletivo em comer melhor e fazer comidas melhores para pessoas que amamos ou para ostentar as qualidades perdidas na mesa e na cama. Meus (nossos) filhos e netos lembrar-se-ão da galinha frita da vovó, do arroz de china pobre do pai ou da maravilhosa comida cinco ou mais estrelas do melhor restaurante? Entendam que esse exercício a que vocês foram estimulados a fazerem comigo jamais teve o objetivo de magoá-los e sim de tornarem as suas existências mais luminosas e amorosas e de um futuro com pessoas mais felizes e aptas a amarem e serem amadas, respeitarem e serem respeitadas e com gratidão deixarem um mundo melhor para os seguintes.

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