9 Set 22 – De Faca na Bota! – Especial Semana Farroupilha 2010 – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
De Faca na Bota!
– Especial Semana Farroupilha.
|
O |
dia amanheceu azedo! E com gosto de pelego na boca. Eks! E era pelego mesmo, pois a criatura ainda roncava como Mercedes Benz atolado na Faxina. A baba grossa escorria pelo canto da boca deformada pelo sono modorrento. – Coisa de bebum! – cochichou a prenda que raspava o estrume fresco da sola do sapatinho. O marido, índio dos mais machos, olhou para outro lado disfarçando o constrangimento de ter que se explicar pro taura. E acelerou a retirada.
Uma mistura de bordogue com o cão dos infernos de Dante guarnecia o dono. O animal deformado pelas cicatrizes de peleias com touros sanguinários tinha o couro repuxado como roupa amarrotada. Mas, como sentinela, continua ali. Olhos relampejando e o gosto de sangue nas presas expostas.
Madrugada anterior. O carteado corria solto no encerado do pala vermelho estendido sobre a mesa. A costela tinha deixado seu recado nos bigodes e barbas lustrosas. Agora somente a cerveja ou algum liso de cana descia a goela ardida. Algumas mãos tremiam empunhando as cartas. Olhos escondidos nas sombras das abas largas. Esta bailanta de mãos e cartas deixou somente dois pelejadores naquela arena rubra. A aposta final era uma égua crioula tri-premiada nas canchas retas de Carazinho. Seu nome: Brizoleta. Jamais havia perdido, inclusive para os cascos lisos dos castelhanos.
– Tão pifados os dois! – murmurou entre uma tragada de palheiro e uma cuspida pro lado do Demenciano.
Gumercindo puxa lentamente uma carta do lombo do baralho.
– Sete belo! Bati, eta porquera! – berrou dum salto só de euforia.
– Me roubaste desgraçado! – relinchou agourentamente o índio Jordão. Meio sangue guarani com castelhano foi expurgado da Brigada depois de deixar as tripas de um coronel lambendo o chão e ainda ostentava a fama de matador nas barrancas do Uruguai. Na revolta de mau perdedor berrou aos quatro ventos: – Não vais viver pra contar vantagem! – e puxou de uma adaga camuflada dentro da bota rustilhona. Gumercindo, num lance de sobrevivência atirou-se pra trás chamando o pala vermelho para o braço esquerdo. Enrolou no braço num sobressalto de sobrevivência aos possíveis golpes da adaga. O pala seria defesa ou mortalha. A platéia abriu um clarão derrubando bancos e mesas, num salve-se quem puder de dar dó. Já tinha valente enchendo as bombachas. A turma do deixa disso xiru véio e quem te pede sou eu sumiu do mapa. O aço branco riscava o céu da barraca de lona.
Gumercindo caído ao chão buscava alguma defesa ante a fúria avassaladora do oponente. Eis que o bordogue saído de algum lugar incerto e não sabido saltou em defesa do dono e companheiro. Seus caninos enterraram-se até o osso no braço assassino. O índio era muito grande, mas até gigante tem hora de ajoelhar-se. O inesperado ataque do cão fez Jordão tropeçar num banco e cair em direção do Gumercindo. Eis que apareceu um espeto, ainda com um resto de costela seca, na mão desesperada da quase vítima. E o espeto entrou cantando um hino de morte na barriga de Jordão. Entrou ali naquela zona encascurrada do umbigo e saiu faceiro pelo lombo da criatura. – O sangue jorrava que era a coisa mais linda de se ver! – contava faceiro um dos valentes espiando ao longe.
Resumindo – a polícia levou o defunto e liberou o trago pra acalmar os ânimos. Como o delegado estava por perto e viu a cena declarou legítima defesa e mandou vacinar o bordogue. E o resto? Ninguém sabe ao certo onde começa a lenda da peleia num acampamento farroupilha e onde termina a realidade. Mas tem uma sepultura no fundão de São Luiz Gonzaga com um espeto cravado e uma coleira de cão.
Vocabulário auxiliar:
– Bebum: pessoa alcoolizada. – Taura: gaúcho valente. – Bailanta: baile gauchesco. – Sete belo: sete de ouro nas cartas. – Pifados: no jogo de carta pif-paf quando o jogador está por uma carta para vencer ou bater. – Encascurrado: com sujeira ou cascão. – Rustilhona: tipo de bota cano alto com tira de couro apertando a boca contra a perna.