10 Outubro 27/2010 – Patente – Desejo e Necessidade – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas e Agudas – Jornal Opinião
Patente! – Desejo e Necessidade.
– Série Humor ainda é um bom remédio! –
– Ah no meu tempo! Como seria bom ter isso ou aquilo de novo… – certamente escutam essa ladainha até com alguma frequência. Nostalgia! Conservadorismo! Mas se há uma coisa que ninguém quer de volta é a velha latrina. As casas de nossa Viamão jurássica contavam com uma latrina ou patente de casinha no fundo do quintal. Geralmente ao lado do buraco do lixo – sim, um buracão para acomodar o lixo das casas, pois o recolhimento é coisa modernosa.
Contratava-se alguém ou a incumbência era ao familiar mais forte de cavar um buraco profundo de cerca de 1×1 metro de boca. A casinha de madeira era instalada sobre esse fosso. – E o pessoal que não tinha nada disso? – aliviava-se em bananeiras ou mamoneiros plantados estrategicamente e ainda contavam com a criação de aves para fazer sumir os dejetos. Coisa medonha – agora! Na época era normal. A porta da casinha era trancada por uma tramela de madeira e pelas frestas evitava-se de alguém querer utilizar tendo outro no interior. Era coisa para adulto, temiam que as crianças caíssem no buraco de estrume. Papel higiênico também é moderno. Num prego ou num arame pendiam pedaços do Correio do Povo ou papel de pão. Assim nasceu o hábito de ler ao evacuar – será? Era comum o medo de levar uma picadura nos glúteos, pois aranhas habitavam esse local apesar do odor terrível amenizado com pás de cal virgem eventualmente.
– E durante a noite ou com chuva e no inverno? – inquieta-se o atilado leitor dessa coluna instrutiva e reconstrutiva da história defecatória dos gaúchos. Respondendo – penicos! Metálicos ou de louça decorada. Dependia do poder do burguês. Enchiam-se os penicos durante a noite ou nas tormentas e depois eram esvaziados na latrina ou no mato. Ou na cabeça de algum seresteiro intrometido. Aqui no sul cunhou-se a palavra Patente como sinônimo de banheiro ou de latrina. – Por que o nome? – anseia-se o leitor. Essa educadora coluna explica. Os vasos sanitários eram aqueles tradicionais de louça branca. Importados da Europa ou dos Estados Unidos. E traziam impresso “Patent Req.” (Patente Requerida) e Made in USA. Eis que o pessoal da estiva do porto sonhando em ter um vaso daqueles, passou a chamá-los de Patente – coisa de rico. Para bunda de rico! Inclusive um desses estivadores deu o nome de Madeusa para sua primogênita. Made in Usa para Madeusa! Beleza.
Quem gosta de miséria e passar trabalho é gringo rico ou burguês. Pobre quer coisa boa e… Pois tenho um amigo que ao saber do prêmio dos 119 milhões soltou aos quatro ventos o seu portentoso desejo: – Quero uma patente só pra mim! Uma patente só minha e de meu uso exclusivo. Inicialmente causou certo espanto, mas logo entendemos seu “projeto de vida”. Continuou: – Não há romantismo que aguente o fedor de uma defecada (Nota: o termo original é outro). Muito casamento terminou por isso. Devia ter a Bolsa Patente pro cara poder ter paz de espírito e poder se concentrar no ato. O cara até vive sem sexo, agora ninguém vive sem defecar. Me contou um engenheiro que o Presidente na reforma do Palácio do Planalto, trouxe uma patente americana. Com tudo que tem direito a esquerda. Assento aquecido de gel de silicone maciozinho que nem seio de mulher. Sensor de presença com perfume a escolher e som ambiental conectado num Ipod. Internet sem fio. TV LED 60 polegadas. Telefone por satélite e conta paga por nós é claro. Sistema auxiliar para constipação. Galvão Bueno gritando – Vai que é tua Fulano! – quando o cara faz o gol. Jato de água morna e ar quente para secar o pompom. Ambiente climatizado e livre de odores corrosivos. Biblioteca ou torneira de chope gelado – a escolher. Neon na porta – Tem Gente! Com aviso sonoro simultâneo – Vai defecar em outro lugar! Os mimos e utilidades continuam e vai longe, só depende da imaginação e desejo do milionário ou do representante do povo.
Aparvalhado? Boquiaberto? Acredito porque estava lá. Desejos são desejos. E você o que desejaria ardentemente fazer se ganhasse uma bolada na loteria? Ou fosse ungido na política?
Lançamentos Literários.
Livro Arquivo Poético – Antologia de Poemas de Fernanda Blaya Figueiró no dia 03 de novembro, às 18,30 horas, na Biblioteca Lucília Minssen, no 5º. Andar da Casa de Cultura Mário Quintana. Prestigiem!
Livro Encontro Pontual – Antologia de Poesias, Contos e Crônicas – Especial para a 21ª. Bienal Internacional do Livro de São Paulo de 2010. Este colunista que vocês dão a honra de prestigiar participa dessa nova obra literária. Tenho o Conto A Praga do Lençol estampada a partir de página 63 do livro, trazendo uma adaptação livre de uma história que minha mãe contava aos filhos e familiares de uma remota lenda viamonense. Está à venda: www.asabeca.com.br e www.scortecci.com.br.
Ausente
Na vasta folhagem dos acontecimentos idos
pousam pássaros em bando com lembranças no bico.
Faço silêncio total e assim fico,
languidamente,
plena do ausente!
Lúcia Barcelos – Poetisa

