Poesias & Crônicas! – por Lúcia Barcelos

Intuição

Sou uma conspiração silenciosa

Em prol do meu próprio coração!

Sou uma forte impressão…

Sou uma intuição

Que me diz:

Posso, sim, ser feliz!

Lúcia Barcelos

Ventos de outubro

Os ventos de outubro arrancam pétalas e lembranças.

A cabeleira das árvores doideja indecisa.

Os passos da noite, em longas andanças,

não deixam rastros pelas campinas sem luz.

Minha alma silenciosa entende que precisa

da saudade, da poesia e da memória,

pois que nesta trajetória

de ter um coração, por vezes aflito,

me é consolo cada verso escrito!

Lúcia Barcelos

Memórias

Busco as memórias de luz

Junto às folhas outonais

Das amizades profundas.

Sei que escutas minha voz

Em outras vozes naturais,

Como se – de súbito,

Abrissem as portas do vento!

As grandes raízes do pensamento,

Ocultas, crescem na alma.

Meu coração, curvado

Sobre saudades oceânicas,

Lança redes,

Quando há apenas o voar lento das gaivotas.

As horas afastam o dia,

Afastam o sol que caía,

E a lua esparrama-se e arde nas ondas

Numa elegante valsa triste

Que a escuridão não apaga!

Há um silêncio que afaga,

E há versos abandonados nas espumas brancas!

Lúcia Barcelos

Pássaros

Hoje, minhas palavras são pássaros dispersos,

São pedaços de luz que te procuram nos caminhos,

Depois pousam em linhas para fazer-te versos:

Ao leres, em teus olhos, encontrarão seus ninhos!

Lúcia Barcelos

Intenção

Amigo, colhe o sopro divino que ora passa,

Neste poema que te fiz na tarde azulada,

Guarda-o como se fosse uma luz ou uma graça:

Intenção singela de quem não tem mais nada!

Lúcia Barcelos

Cicatrizes

Pobres versos que perfumo, então,

Quisera-os coloridos, borboletas felizes,

Com asas estendidas em teu coração,

Substituindo tuas cicatrizes!

Lúcia Barcelos

Escritor & Academia Literária

É ponto pacífico que as Academias e/ou Associações Literárias constituem-se importantes espaços para a divulgação da Literatura, reconhecimento e divulgação de valores locais. E justamente por isto muitas cidades têm, nas suas Academias, o órgão literário máximo, e nelas reúnem ou deveriam reunir os expoentes locais.

Não devemos esquecer, porém, do fator humano: junção imprescindível para a formação das Entidades. É o conjunto de pessoas (neste caso, literatos), a razão de ser da Academia Literária.

Anterior e independente à questão da existência ou não de uma Academia Literária em determinada localidade, está a questão do escritor. Ele tem toda uma caminhada que culmina com o reconhecimento e a justificação de sua atribuição. Ele expõe sua capacidade de criar com as Letras, que depois é legitimada pela autoridade dos críticos, pela reputação dos sítios onde suas obras são publicadas e, principalmente, pela simpatia e aceitação dos leitores, cuja preferência socialmente determina o valor literário de uma obra e de um escritor. Ainda, é importante que se tenha presente que a escrita perdura. Os leitores do momento (de uma época), para os quais o escritor escreve, deixam de existir. O escritor, deixa de existir, mas suas palavras ficam. As cidades podem deixar de existir. As Academias podem ruir com as cidades ou se dissolverem antes disso, mas os escritos transcendem o tempo!

Por esse detalhe, escrever adquire uma dimensão quase sagrada. O escritor é alguém que precisa estar além das questões triviais das quais, é claro, ele necessita por sua condição humana.

Escrever não parece simplesmente exercer um dom ofertado com o nascimento. São necessários alguns encaminhamentos práticos para se chegar à escrita (a alfabetização, o estímulo à leitura e etc.). Porque escrever é construir, e o êxito da construção não vem simplesmente pela preponderância da inspiração.

Uma obra escrita traz impressões, expressões, sentimentos, enfim, a personalidade do escritor ou de personagens que ele cria. E nisto, o escritor se dá juntamente com sua criação. Um texto ou um livro não resultam de uma chuva de palavras derretida de uma nuvem mágica, carregada de imaginação! O escritor também precisa ser um leitor e laborar com as palavras.

O escritor não está somente na superfície de um espaço, ou seja, o escritor não se faz pela cadeira que ocupa numa Academia: há aí uma questão mais profunda. Ele se faz, primeiro ouvindo a voz de sua própria ansiedade em se expressar, depois ouvindo ansiedades alheias, laborando com metáforas e ambiguidades, possibilitando reflexões e interpretações e a grata surpresa do encontro com alguma “verdade”, aos que buscam descobrir o que as palavras têm a revelar!

Lúcia Barcelos

Lua nua

Eu andava só

Saboreando o silêncio e o pó

Quando te vi.

Caminhavas na luz,

Logo ali,

E deixavas pegadas na rua.

Ao me ver,

Teu rosto sorrindo,

Ia de branco vestindo

A lua

Que brilhava no céu

Toda nua!

Lúcia Barcelos

Escrita

O pensamento teima em pensar…

Invoca as letras, então,

E as imprima em algum lugar

Para que as palavras transcendam as bocas.

Pois o tempo, ao passar,

As faz parecer tão ocas!

Lúcia Barcelos

 

Tear

Às vezes pisoteio nuvens

Quando o horizonte atraca em portos de espanto.

E na débil luz das madrugadas,

Enquanto os anjos desenrolam alvoradas,

Teço versos com a luz dos teus encantos!

Lúcia Barcelos

Arte

A vida é bela enquanto Arte!

Na paisagem que resvala sob o poente,

Transpiram a dor e a alegria em toda parte.

Nas ruas, nos morros, nas pedras de sempre,

O passado escorre, derrama-se o presente,

Incide o mesmo sol de outrora nos telhados

E o mesmo açoite dos ventos já soprados.

Há recantos profundos na alma, aos amores consagrados.

Há batismos de límpidas esperanças e ideais.

Há anseios, paixões, muito mais…

Renascem encontros, procuras e tudo o quanto somos.

Celebra-se nas canções e poesias, a vida do povo, a alma dos gênios:

Suor, talento, lamentos, memórias…

A saga de um tempo de lutas e glórias.

Lateja nas veias de meninos e meninas de toda parte:

Inspiração, revolução e Arte!

Lúcia Barcelos

Maria

Maria: cinco letras a bailar,

Cadência de valsa e ternura,

Concerto de paz e doçura

E soa assim: orquestral!

É nome que faz correnteza

Num brotar de manancial.

É cascata na natureza

Ou águas mansas de rio.

Singelo e paradoxal:

Aquece e dá calafrio.

E quando vem ao pensamento

Esse nome de Maria,

Parece que acaricia.

Se entrega ao sopro do vento,

Que nos devolve poesia!

Lúcia Barcelos

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As letras do teu nome

Há em teu nome, uma grandeza de mar:

Imensidão oceânica feita de sal e ternura!

Leva também a doçura

Das águas mansas de um rio.

Um sussurro, um arrepio,

O aroma das maresias,

As rimas e os versos todos para compor poesias!

O teu nome sobre a areia, a onda inquieta persegue,

Tenta apagar e depois segue,

Recolhe-se e volta ao mar.

E então se põe a vagar

Entregue ao sopro do vento.

Há idílio e encantamento,

Dança de rara beleza

No encontro da natureza

Com as letras do teu nome.

E nem o tempo consome

Em suas horas aflitas,

Essas letras quando escritas

Na orla do coração.

Há verões e manhãs frias,

Segredos em conchas vazias,

Solitários à beira-mar.

Porém, teu nome resiste

Às tempestades, marés tristes

Para depois acender-se num ritual de emoção:

Sagrado e também profano…

Ressoam, estrugem as ondas, ao teu nome dão vazão!

Lúcia Barcelos

 

Versos à lua

Ó lua, se eu fosse artista, uma pintura faria,

Um quadro com poesia,

Com versos em teu louvor!

Pois tão logo a tarde finda

E a noite estende o véu,

Tu apareces linda

Ornando a extensão do céu.

Fazes bordado no pasto,

Com um jeito puro e casto,

Vestida em luz cor-de-prata:

Tens um charme de mulher

E uma manha de gata!

Com esta veia poética,

O semblante pensativo,

Encontro em ti mil motivos

P’ra tecer versos de amor!

Minha alma ajoelhada

Sobre o altar redentor

Banha-se na luz emanada

De todo o teu esplendor.

Lua, virgem que seduz

Mas que vive sem pecados.

Aos pés dos anjos acesa,

És musa dos namorados,

Celebridade, princesa.

Mereces a realeza

E todos os predicados,

Pois és com toda certeza

Deusa dos apaixonados!

Lúcia Barcelos

Tese

É preciso também saber andar

Pelos caminhos de voltar,

Ter senso de realidade,

Uma mente que pensa,

Porém sem deixar-se conduzir

Pelas asas da descrença.

É preciso acreditar nas mãos

Que podem esculpir certezas,

E também acreditar nos desígnios do coração.

É preciso acreditar na poesia

Para ilustrar a face de cada novo dia!

Lúcia Barcelos

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