Poesias e Crônicas! – por Lúcia Barcelos e João Machado

Mel

Meus poemas:

Favos de mel.

Teu olhar “zangão”

Pousa nos versos

Ávido de paixão!

Lúcia Barcelos

Transmutação

Por um espaço de tempo,

os sonhos podem ficar sequestrados,

numa noite apagada, confinados,

em cativeiro de esperanças adormecidas,

sob um teto de estrelas esquivas…

Mas a energia das coisas vivas

e o dom da transmutação

reacendem fósforos na alma

e trazem novamente luz ao coração!

Lúcia Barcelos

Queria…

Queria um poema incomum,

com conotações divinas,

com luzes cristalinas

de manhãs primaveris.

Um poema que pudesse

medir as madrugadas.

Um poema quase prece,

de palavras incendiadas.

Sem compromisso com a métrica,

mas de formas legitimadas.

Queria um poema-flor,

um poema-lar e liberto,

Um poema-amor,

longe e perto,

um poema do povo

e um poema deserto

que reinventasse a vida.

Queria um poema perfeito

como as coisas sonhadas,

mas da insônia nascido!

Um poema perdido

e depois encontrado

no ninho do coração

de quem tem a coragem

de viver encantado!

Lúcia Barcelos

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Bonança

O verão pediu passagem.

Outono: nova paisagem.

O inverno chegou, então.

No céu, repentino clarão.

E o estrondo de um trovão!

A ira da natureza entra em cena.

Primeiro ato: tempestade

E a chuva torrencial!

Fujo do temporal.

Invento o meu paraíso

Na bonança de teu riso!

Lúcia Barcelos

 

Construir-se

(texto elaborado a partir do poema “Operário em construção, de Vinícius de Moraes)

O tempo permanece de braços abertos deixando escoar oportunidades mil, entre elas, a oportunidade para que cada um afaste-se das coisas todas que o engolem e o regurgitam cotidianamente, sem que percebam, e apenas olhem sobre elas.

E assim, de repente, em meio à jornada árdua e rotineira do operário, em meio à dor latente em seu corpo ou proveniente da dignidade ferida…

De repente, à visão de suas próprias cicatrizes, resultantes dos efeitos da constante exploração a que vivia submetido, ou a partir da consistência do sangue e do suor misturados à infinidade de itens fabricados para a saciedade da fome voraz do mercado consumista…

De repente, no final de cada dia, quando o cansaço deitava na cama com o operário e, num silêncio áspero lhe dizia muito…

De repente, as pequenas injustiças cresceram dentro da tristeza do operário!

De repente, em meio a esta jornada trevosa, acendeu-se a luz da consciência! E então a vontade deixou de ser náufraga: não mais permaneceu atracada em portos de submissão.

O horizonte, então, profetizou ao operário, tempos de transcendência!

E a nova consciência deste operário calejado, cansado do açoite, acendeu em meio à longa noite de injustiças, um consolo de pássaros em vôo livre.

E uma vez de posse da chave da utopia, com as mesmas mãos cheias de calos feitos na construção, o operário foi abrindo as portas da percepção.

A luz de sua nova visão foi naturalmente rasgando as sombras das falsas ilusões e das mentiras impregnadas nos discursos que apenas marcavam e continuam marcando data para acabar com a miséria do mundo, enquanto nada acontece.

Na verdade, de concreto, o operário só via o concreto usado em suas construções.

O operário, enfim, viu – através das tantas paredes que suas mãos levantaram, os olhos de cobiça dos que o julgavam tolo. E viu que estes deleitavam-se na escuridão de seus próprios espíritos, metidos em roupas novas, tentando confundir os humildes com meia dúzia de palavras bonitas. Mas o operário conseguiu ver a nudez destas criaturas que não conseguiram enganar a todo mundo.

E a partir daí, as mãos do operário que tanto mexeram em cimento e areia – de repente, quais flores de lótus que surgem da lama, puderam iniciar uma luta de classe. A luta de quem deseja alcançar os merecidos frutos de seus sonhos e o perfume da dignidade: um direito de todos.

E o operário, construtor de tantas obras para desfrute alheio, conseguiu construir dentro de si, um delicado acontecimento!

Lúcia Barcelos

Casamento?

“A peripécia conjugal pode comparar-se a essas belas febres que matam um indivíduo bem constituído ou lhe restauram para sempre a vida”.

“Encontrar uma mulher com a audácia suficiente para me querer será, de hoje em diante, a mais cara de todas as minhas esperanças “.

(Honoré de Balzac, in “Fisiologia do Casamento”)

A mim parece que há três classes de casamento:  os felizes; os suportáveis e as uniões mortalmente infelizes. Os felizes, são os que são unidos por um projeto maior que a simples união marital. São dos que fazem do casamento alguma coisa maior e mais útil, onde o casamento é apenas um meio para tal. A atração física, apenas, não é base suficiente para manter estável a união de duas pessoas de sensibilidade acima da média comum das pessoas. É claro que falo a partir do meu ponto de vista (opinião visceralmente pessoal).

Quando Balzac escreveu  “Fisiologia do Casamento”, emitiu sua opinião pessoal sobre um ato que ele jamais praticou: o casamento. O grande autor teorizou filosofando e, por vezes, brincando em cima de recolhas amealhadas nas anedotas fornecidas pelo folclore e observações da sociedade francesa de sua época. Eu falo apoiado na experiência própria, mas creio que há de existir sempre o estímulo de uma grande motivação para que duas pessoas optem pelo casamento e que permaneçam juntas: o amor, a admiração mútua ou a simpatia de uma grande amizade!

João de Souza Machado

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