“Engraxando os Beiços! – Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião – 08 Junho 2011

 

06 JUNHO 08 – 2011 – ENGRAXANDO OS BEIÇOS! – EDSON OLIMPIO OLIVEIRA – CRÔNICAS & AGUDAS – JORNAL OPINIÃO

“Engraxando os Beiços!”

Vivemos num controle rigoroso – o que comer? O que não comer? Somos assombrados pelas imagens de veias entupidas com gorduras, criaturas cambaleando, tontas como peru bêbado, bocas tortas e um sem número de fantasmas reais e terríveis. Viva a dureza de dietas com muitas fibras, vegetais abundantes, peixes de águas gélidas e uma imensa gama de alimentos desentupidores de canos, digo, vasos sanguíneos. Há uma epidemia de obesidade a grassar na humanidade. Inclusive entre os chamados pet, ou animais de estimação. – Essa cadela deve ir para um SPA com urgência, tá gorda que nem os donos! – agulha uma amiga. Verdade.

– Os gordos são mais felizes! – alardeia uma lenda urbana. Como se risco de doença ou ser doente ou estar doente quem se ama possa trazer alguma felicidade! – Morro, mas morro de barriga cheia! – diz um diabético e hipertenso. Mas vamos parar com terror e sofrimento ou os (e) leitores (as) fecharão o jornal e perderão as delícias gordurosas dessa crônica que relembra uma época ingênua. Ou seria insana? – Éramos felizes e nem desconfiávamos! – murmura um amigo com os olhos marejados pelo excesso de alho na comida.

O relato:

– Fui criança que tomava leite tirado diretamente da teta da vaca pela minha avó. Fazia-se a ordenha numa vaca separada das outras, pois dela e somente dela saia o leite para os netos e para as crianças. Aquele leite espumante e quente, saindo vapor, colhido num canecão de folha. Desses canecões feitos em funileiros. Nós ficávamos em volta só esperando que ela enchesse as nossas canequinhas. Depois a vó colocava canela em pó no leite que era pra ficarmos mais fortes e crescer com saúde. Algumas crianças tomavam com pó de quina pra criar mais sangue e tirar febres do corpo. Lembro que nos dias frios, ficávamos na cozinha com piso de tijolos e tinha um enorme fogão de rabo. Desses que hoje chamam de fogão de campanha com pedaços de moirões e grandes paus de mato queimando sempre. A vó fazia um bule de café de café preto. Botava pó de café num saco de pano dentro do bule e vertia a água d’uma enorme chaleira de ferro. Devia ter muita força para erguer uma chaleira daquele tamanho! O leite era muito mais pras crianças, pois os mais velhos preferiam o café preto que tomavam em canecas de alumínio ou alouçadas de várias cores.

Eu nunca gostei de tomar café nessas canecas alouçadas, porque tinha lugar que pelas batidas descascavam, enferrujavam e ficavam vazando, pingando até mandarem soldar com estanho. A vó fazia uns enormes pães com a casca dourada e luminosa das gemas de ovos que ela pincelava antes de colocar no forno. Tinha manteiga feita em casa. Nós ajudávamos a bater a nata com sal, mas eu gostava mesmo era de passar banha de porco no pão. A vó criava porcos. Tinha porcos enormes que nem conseguiam levantar-se para ir ao cocho comer. Dava-se a lavagem na boca do bicho. Havia uns porcos brancos que chamávamos de macaus. Com o rosto enviesado e o olhar de revesgueio ela calculava os porcos em latas de banha. – Esse macau vai dar tantas latas de banha! – sabe-se que nunca errava. Mas as crianças jamais assistiam as carneações dos porcos. Escutávamos os gritos curtos interrompidos pela lâmina certeira. Guardava pedaços especiais de carne dentro das latas de banha dourada, pois não havia geladeiras. E tinha os torresmos ainda… Mas isso fica para outro dia!

Deixe um comentário