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11 NOVEMBRO 02 – 2011 – Finados – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Finados
A nossa formação cristã e lusitana, ao contrário da espanhola, faz dos Finados uma data de reverência aos mortos, sejam amigos ou parentes, ídolos ou até pessoas estranhas. É uma época de sofrimentos em que as lembranças afloram e a falta ou a ausência dos entes queridos traz pesar e lágrimas. Aos milhares os cortejos buscam os cemitérios, ou o local do repouso final das pessoas queridas. Velas e flores são ali depositadas em preces dolorosas. A nossa solidariedade e respeito para todos que assim fazem dos Finados um rito de amor.
Mas vamos novamente ressaltar e chamar a atenção aos contingentes de futuros defuntos ou de mortos-vivos que caminham entre nós. O atilado e-leitor ainda esbugalha os olhos com essa chamada? Para a maioria talvez haja um amortecimento ou até uma anestesia para isso, pois tudo que se torna corriqueiro ou vulgar jamais causará o mesmo impacto quando não nos atinge pessoalmente. Quantos milhares de brasileiros perambulam pelos plantões de hospitais ou ali estão acampados em macas ou em bancos a espera de um melhor atendimento que muitas vezes não vem. Ou estão em alguma ambulância-táxi varando todo um Estado com filhos na barriga buscando um recurso que tarda e muitas vezes chegam com mortal atraso. Aos milhares de brasileiros em filas de espera por medicamentos, por exames, por cirurgias que os anos encarregam de sepultar.
Os milhares de brasileiros assolados por enfermidades julgadas extintas da moderna civilização tombam como abandonados combatentes em leitos fétidos de vilas e favelas com esgotos a céu aberto. E pelas balas que deixaram de ser perdidas por já terem encontrado algum corpo que as albergue e fazendo sinfonia com seus silvos mortais e o choro dos desamparados pela incúria e incompetência dos seus eleitos. Eleitos e não eleitos como Ministros que morrem no exercício pérfido dos seus cargos com a conivência quase geral na privatização ou terceirização da coisa pública em seus benefícios pessoais e de suas falanges políticas.
Os milhares de irmãos que como mortos-vivos ou zumbis entregaram o corpo e a alma à droga assassina e mutiladora. Legiões de seres que algum dia amaram e alguns ainda são amados, mas que tiveram a vida truncada e arrastam-se nas sombras da dor e da absoluta degradação. Seres de almas esfaceladas e de famílias em sofrimento sem fim. Uma insaciável fome-sede da maldita droga e o assédio constante dos anjos da morte.
Os brasileiros que aos milhares irão tombar todos os dias numa guerra insana e cruel chamada de trânsito brasileiro. Outros tantos com vida vegetativa e muitos mais com graves mutilações físicas e psicológicas.
Meu Deus, quantos de nós, eu e você, amigos e parentes ou simplesmente aquele ao seu lado ou na mesma fila que amanhã será lembrado – se for! – num outro Dia dos Finados. Quantos estarão recebendo as preces e as flores num ciclo de mortes anunciadas e que poderiam ser evitadas. Normalmente evitadas. Reflexão! Sentimentos e dor, mas também, ou antes, refletir e conscientizar-se; pois nem toda a morte é inevitável.
Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira
Médico – Cirurgião
Cronista Jornal Opinião de Viamão