![]()
Publicado na coluna Crônicas & Agudas do Jornal Opinião de Viamão em 25 de Janeiro de 2012
Mensagem da doutora Ângela Lanner Vieira que solidariamente publicamos.
“Ao João Bueno
Ao João de Barro
A todos os homens simples que tornam a vida um movimento de Ser.
Pretendia para si o melhor dos dias, sonhava apenas com o Ser, mas como o ser? Para ele afinal Ser era tudo. Seria poder se sentir de um jeito quase inexplicável, algo assim como estar em si, estar cheio de si, estar sabendo o que é e estar conforme com isto. Enfim que palavra empregar para explicar o que ele desejaria, o que tinha dentro, o que imaginava que seria Ser, simplesmente Ser.
Enquanto se debatia com o que pretendia com sua existência soube da morte de um homem simples, construtor de casas, um homem chamado João, um verdadeiro João de barro, uma destas criaturas que quando morre, todos morrem um pouco junto. Como pensar no que se pretendia ser e ao mesmo tempo pensar na perda do João. Que coisa tão absurda construir dentro de si a ideia do Ser e agora a notícia inexorável do não Ser. Como fazer poesia ou pensar a vida frente a tão implacável fato, este de deixar de existir (o não Ser). Vida e morte, Ser e não Ser se debatem deixando um estranho sentimento de nada, de para que, de afinal?
Havia um projeto e havia também um fato, um homem chegava ao fim e junto com ele todo um jeito de Ser e de Fazer. Já não tínhamos mais o nosso João de Barro. Quem agora iria olhar para o nosso telhado e perceber que um desalinhamento leve seria ameaçador na próxima tempestade? Quem iria se propor a retirar as raízes invasoras de nossos esgotos? Quem iria entrar em nosso lar, caminhar sem deixar marcas e refazê-lo de um jeito suave e limpo? Não havia em nossa imaginação mais ninguém a pensar. João tinha se ido, tinha nos sido roubado dolorosamente. Deixou a simplicidade, abriu mão da terra. Suas mãos endurecidas e calejadas pelas ferramentas que constroem e moldam no barro, na pedra e no ferro não estão mais aqui. Já não podem acariciar a madeira, segurar o lenho e sentir seu desejo de direção. Já não podem amaciar a aspereza do tijolo e transformá-lo em superfície deslizante para o aconchego de nossas costas. Já não dobram o ferro ao nosso desejo conferindo a forma apropriada de nossa roupagem.
Nasceu, existiu e se foi na simplicidade. Muitos não teriam sentido sua ausência não fosse o seu Ser, não fosse o que forjou e construiu em si mesmo, valores de solidariedade, sinceridade, comprometimento e confiabilidade.
João, não sei onde buscaremos outro João de barro, outro homem simples, destes que pouco temos e que muito precisamos para sentir que a vida vale a pena quando a forjamos sobre temperos simples e marcados, como estes que tu nos mostraste com tuas passadas sólidas e pesadas, com tuas mãos fortes e calejadas, com teu espírito firme.
João, que tenhas continuidade e que possamos nos encontrar um dia para que juntos possamos apreciar os Joãos de Barro, bico a bico carregando e forjando as suas moradas.” – Dra. Ângela Augusta Lanner Vieira – Médica Homeopata.
Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira
Médico – Cirurgião
Cronista Jornal Opinião de Viamão
Visite:
