O Negão do picolé – Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião – 29 Fevereiro 2012

2012 – 02 – 29 – Negão do Picolé – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Negão do picolé

T

ínhamos os filhos ainda crianças na praia de Cidreira, num tempo em que esta praia se caracterizava, entre outras coisas, por ser “a praia dos viamonenses”. Veraneávamos à rua 2, na quadra do Bar do João. Ao contrário dos tempos tormentosos e preocupantes que hoje vivemos, as crianças tinham a liberdade de brincar pela rua com os amiguinhos da vizinhança. Vezes pelas calçadas, vezes alternando as casas. O verão era mais longo para muitas famílias, sendo comum que as mulheres e os filhos ficassem no litoral enquanto os esposos provedores trabalhavam na cidade e no mês escolhido reuniam-se na alegria da família. E alguns “direitos” infantis eram exercitados com muito maior frequência. Assim o puxa-puxa, o refrigerante, a bicicleta, o skate, as brincadeiras com horário flexível de terminar e o picolé. Verão e picolé. Verão, picolé e praia. Tudo a ver. Muitos picolés. Tanto na beira mar quanto depois do almoço – desde que “comido tudo” – e na tardinha quando o suor derramado em corredeira pelo rosto e nas camisetas encharcadas.

As lembranças das vidas dos filhos iluminam nossas vidas. Seus personagens fantásticos sempre retornam de verões distantes e em invernos da alma. Uma dessas criaturas maravilhosas era o Negão do picolé. Espero que alguma patrulha não exija o “politicamente correto”, pois isso somente iria destoar a realidade bendita de simplicidade, humildade e amor. Ele, seus colegas de profissão e a criançada chamavam-no de Negão do picolé. Jaleco branco sempre muito limpo, bermudas, chinelos de dedo, de meia idade e muito gordo, ainda com o carrinho da Kibon. Ali era o seu território de trabalho e de vida – um perímetro de ruas e à beira mar. Conhecia cada uma das “suas” crianças. Chamava-as pelo nome ou por alguma característica ou apelido. A nossa filha do meio, a Cynthia, era magrinha, branquela (loirinha) e menor entre as coleguinhas. Ainda usava grandes óculos com volumosas lentes de grau. Geralmente ficava para o final na disputa dos picolés. Quando chegava a sua vez: − A minha branquinha vai querer o Chica-Bom? – dizia afetivamente. Seus olhos ficavam maiores que os óculos e certamente a saliva rolava entre seus dentes e a língua sentindo os sabores tão apreciados.

À tarde, numa grande área anexa a nossa garagem, várias meninas brincavam com suas Barbies e Bobys, embalando sonhos em seus braços e mentes. Algumas cozinhando nas panelinhas e cozinhas com fogões e geladeirinhas, outras vestindo e despindo a Barbie e seu namorado. As simulações de vozes imitando pais, avós e outros personagens desse mundo maravilhoso e intangível da imaginação infantil. Eis que uma corneta soava ao longe. Como por mágica, muitas estacavam nas brincadeiras e erguiam as cabeças apurando os ouvidos. Alguma das meninas disparava para o avarandado frontal e dava o grito de alerta geral – o Negão do picolé vem vindo! Correria geral. Algumas traziam algum dinheiro que os pais deixavam em suas bolsinhas. Outras não. Cercavam em algazarra o Negão que rindo já as chamava pelos nomes e sabia suas predileções. E o dinheiro? Ninguém ficava sem seu picolé. Dizia:

− Depois tu ou tua mãe me paga, tá aqui teu picolé! – A dignidade nem sempre veste gravata ou toga e nem está nos templos do saber e do poder. Nunca soube como ele fechava as contas com o patrão no final do turno de trabalho. Assim como nunca soube de alguém dar calote nessa pessoa formidável. Jamais aceitou pagamentos a mais para seus picolés, vendia mais picolés. Acredito que o seu maior pagamento fosse a felicidade que distribuía e semeava e seu exemplo de honradez e amor faz-nos entender que esse Brasil assolado por canalhas de todos os matizes e classes sociais pode ter solução.

P.S. Feliz Aniversário aos amigos e amigas neste 29 de Fevereiro – Bissexto!

Caminho do Viamão

Rota dos tropeiros

Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico – Cirurgião

(51) 3485-1800

Visite:

https://edsonolimpio.wordpress.com

3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Avatar de Suelci Teresinha Pereira Franzen Suelci Teresinha Pereira Franzen
    nov 02, 2016 @ 20:02:45

    Quero agradecer esta história que também vivi com meus filhos na Rua 2 em Cidreira. Uma homenagem fascinante aquela personagem que refrescava a rua com seu jeito simples mas cativante para conquistar seus fregueses. Um tempo que marcou e deixou saudades . Parabéns ao Dr. Edson por escrever com detalhes um tempo tranquilo que acontecia na Rua 2. Obrigada.

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  2. Avatar de Rodrigo franzen Rodrigo franzen
    nov 02, 2016 @ 22:39:34

    Gostei muito do seu texto..o sr por um acaso é o pai do Duda? Se for é ia muito na sua casa da rua 2..meu nome é Rodrigo e hj moro em Curitiba.. abraço

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