Realidade e Ironia – Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião – 04 Abril 2012

2012 – 04 – 04 – Realidade e Ironia – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Realidade e Ironia

H

á momentos em que a fronteira entre a realidade e a ironia é tão tênue que para o leitor ou ao observador menos atento pode parecer escárnio. Eis que esse amigo, por seus méritos e talentos, galgou a pirâmide social nessa escalada que o Brasil vem apresentando na última década, principalmente. Eis algumas pinceladas de suas observações em nosso encontro:

– Edinho, estou descobrindo coisas que me fazem rir e chorar. Sabias que rico é depressivo? Filhos de ricos são tristes e depressivos?

– Estás fazendo psicologia? Ou com a tua empresa apuraste o olho clínico?

– Sabes que veraneei um tempo no Magistério (N.E.: praia). E agora estou no segundo verão naquele condomínio de Xangrilá-Capão. Foi uma mudança radical no início, mas acreditava que depois a turma ia se entrosar mais. Que nada! Nem conheces teus vizinhos. Todo mundo é de carro com vidros escurecidos e vão direto para garagem. Ninguém fica lavando carro na frente da casa. E parece cidade fantasma, não vês as pessoas. Sabe aquele sonzão de carros ou de vizinhos que não te deixa dormir à tarde ou à noite? Nada disso! É silêncio demais. Não escutas nem berreiro de criança ou briga de casal. O pessoal mal se cumprimenta e pouco se olha. É cada um na sua e… deu. Não tem sujeira nas ruas e nem garrafa de plástico nos lagos. E ninguém pescando nos laguinhos. Coisa estranha. Uns amigos e uns parentes foram me visitar num domingo, a vigilância foi reclamar do som e das crianças correndo pelos pátios. Não há liberdade.

– Mas tem vantagens…

– Claro que tem, mas tá difícil de nos adaptarmos. Sabes que comprei uma X5 (N.E.: camionete Premium da BMW) no Natal? Ninguém nem te olha. Teve um evento com desfile de modas e jantar no salão social do condomínio. Fomos. A nega ficou deprimida e nem rolou assunto com o pessoal da nossa mesa. Os caras vivem em outro mundo. O jantar era um silêncio só. Tu podias escutar um guardanapo caindo no chão. Até fiz um teste, deixava cair e vinha um garçom fardado juntar imediatamente e trocava por outro. Ninguém falando alto. Nenhuma criança correndo entre as mesas e brincando de pega-pega. Ainda bem que não levei as crias desenfreadas. Música suave. Nenhum pagode ou sambão. Uma avó levou um nenê para trocar na sala especial com auxiliares, estava acostumado em restaurantes que trocam as fraldas juntando duas cadeiras e ali já pões pra dormir. Tem um garçom amigo meu que gosta de gritar: – Salta uma maionese que matou o brigadiano pra mesa 10! Lá garçom parece mudo. A TV de 65 polegadas fica na sala ao lado e eu que sempre gostei de comer vendo TV…

Interrompemos o relato desse empresário amigo para que tomemos consciência desse maior choque cultural dos novos ricos brasileiros. Estava escancarada a situação dos adrianos imperadores, ronaldinhos, e ronaldos fenômenos entre tantos outros que com a riqueza quase instantânea geralmente associada com a fama extravasante faziam do futebol, da música ou do show-business um mundo virtual ou paralelo da realidade de suas vidas. Muitos desses astros como Adriano Imperador jamais abandonou a favela material e cultural. Realidades. Novas realidades num Brasil que tem formado e realizado o sonho econômico desses novos trabalhadores. Importante: não entram neste capítulo os RICOS PELA POLÍTICA – canalhas e vigaristas, escroques de todas as legendas e cores, usurpadores de sonhos e destinos. Há uma transição de hábitos, costumes, culturas e principalmente pela educação. Somente a educação soluciona-se e ilumina-se.

Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico – Cirurgião

(51) 3485-1800

Blog: https://edsonolimpio.wordpress.com

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