Uma preferência nacional? – Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opin ião – 14 Março 2012

2012 – 03 – 14 – Uma preferência nacional – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Uma preferência nacional?

P

esquisas de opinião revelam a preferência e o apetite nacional pelos glúteos, bundas, poupanças, bumbum, traseiros ou que raio de nome a ser usado. Muitos de nós estamos enfarados com essa profusão avassaladora. Bunda-verão-praia. Bunda-samba-carnaval. Cerveja-bunda-cerveja. Inflação de “popozudas”. Picanha todos os dias, nem o Gaudério de Oliveira suporta. Muitas belas e magicamente torneadas pelos artesões cirúrgicos ou pelos personal-trainners. Outras com celulite e covas e crateras como a maldita “rodovia Beto Albuquerque”, a ERS 118. Enveredemos por outro caminho nessa bendita coluna. As europeias nunca foram as mais privilegiadas pela região. E não é somente pela cor, geralmente branco-parmalat. É pela consistência, textura, elasticidade, volume dos glúteos, gorduras bem localizadas. Eis que historicamente usaram espartilhos para acentuarem as cinturas e com as saias rodadas e armações de metal, tornavam maiores os quadris fantasiando seus traseiros. “Avisava-se” − quadris largos, bacia larga, sinais de fertilidade e de prole numerosa e assim perpetuar a espécie do homem macho e provedor. Os seios eram mostrados com a mesma finalidade: — Aqui vai dar muito leite aos teus filhos!

Artimanhas eternas da mulher na disputa de seu melhor espaço. Quando Dom João e a corte portuguesa fugiram da Europa para o Brasil, lá por 1808, na atual África do Sul, um britânico espantado com o tamanho da bunda de uma nativa, levou-a para a Inglaterra. Essa negra pertencia à etnia dos hotentotes, hoje chamados de Khoisan ou bosquímanos e tinha essa característica racial chamada tecnicamente de esteatopigia. Essa negra também tinha os pequenos lábios ou ninfas de sua vulva com cerca de 7 a 10 cm – outro aspecto racial. Seu nome Saartjie Baartman (Pequena Sara). Em 1810 chegou e foi colocada em circos ingleses para sua tristeza. Leis inglesas impediram esse brutal abuso. Negociada com franceses, na grande feira parisiense de 1815, na entronização de Napoleão Bonaparte era “mostrada e tocada”, logo sendo descartada e morrendo de sífilis (?) na prostituição em pouco tempo depois. Como franceses e museus se fundem, seu corpo foi usado e guardado para estudos, sendo agora na década de 1980, pelo cientista americano Stephen Gould descrito em pormenores como A Vênus Hotentote. Em 2002, Nelson Mandela conseguiu repatriar seus restos mortais para sua pátria.

Outra das chagas da escravidão foi a devassidão sexual dos “senhores”. Registra-se que o dono da Capitania de Pernambuco deixou milhares de filhos bastardos. E a cultura nordestina ainda privilegia a bunda para ascensão social e abandono da miséria. Aí estão as Raimundas e Clarimundas – “Feias de cara, mas boas de…”. Usa-se pelo Brasil central e norte-nordeste chamar de “tanajura” essas bem dotadas de traseiros volumosos. Tanajura em alusão às fêmeas de saúvas – daí também bunda-de-saúva. Ensinada pelos índios como iguaria pura, assada ou em temperos. Saúva imortalizada por Monteiro Lobato com Jeca Tatu e outras fábulas e contos. Também em Macunaíma por Mario de Andrade. A linguagem popular também usava bunda-de-negra-mina (outra etnia africana) e bunda-de-negra-fula que talvez viesse daí o símbolo nacional da miscigenação racial – a bela mulata.

O Brasil tropical é pródigo em acolher o turismo sexual do europeu. A burguesia continua a fartar-se na cama, mesa e banho. É não é pelas leis do sul que aqui não ocorre. É pelo tipo de brasileira e onde a educação é pior, sobe-se na vida pelo futebol (homens) e pelo sexo (mulheres). Centenas ou milhares casaram-se com europeus, sabe-se que a Suíça, por exemplo, está sendo “colonizada” pelo amor brasileiro.

Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico – Cirurgião

(51) 3485-1800

Blog: https://edsonolimpio.wordpress.com

Participe e Divulgue:

MÉDICOS SEM FRONTEIRAS

www.msf.org.br

Deixe um comentário