O coração da casa – Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião – 11 Julho 2012

11 JULHO 2012 – O CORAÇÃO DA CASA – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

O coração da casa

A

credito e venho de uma casta de homens que olham a cozinha com um apreço especial. Longe de ser um cozinheiro ou alguém especializado nas artes culinárias ou ser um glutão. Mas um apreciador da comida bem feita e especialmente feita com o melhor de todos os temperos – o amor. Gosto inclusive dos programas de culinária pela TV e observo como vocês que os mais renomados “chefs” trazem uma marca indelével em sua atividade que são as lembranças das comidas das suas infâncias e principalmente das pessoas que as faziam, particularmente as avós. Todo o treinamento, academicismo e sofisticação jamais diminuem ou apagam essas marcas de nascença, se posso assim chamar. Isso me encanta. Minha mãe, a dona Dora, além de costureira de “mão cheia” era uma cozinheira incansável e hábil. Eu sossegava o guri extremamente arteiro para participar com ela na cozinha. O aroma de suas panelas que me fazia salivar ao chegar do grupo escolar Setembrina se espalhava pela rua e me tornava alguém muito importante, pois meus colegas também os sentiam e manifestavam o agrado e desejo.

Cr & Ag

Levava um bilhete ao armazém do seu Lelé e voltava correndo com os alimentos pesados a quilo. E o pão que ela fazia e deixava a massa coberta por um pano ao sol e depois já modelado em tamanhos e formatos diversos, alguns feitos por mim como estrelas, letras e bichos. Logo eu a ajudava a pincelar as gemas de ovos das nossas galinhas para que depois de assados e prontos trouxessem o brilho e a beleza da luz dourada. Sentar à escada dos fundos para raspar as panelas de doces e cremes. Ralar coco e amassar bolinhas de coco ralado entre os dedos e deixa-las dançar com a língua em minha boca. As festas de aniversários com a casa sendo preparada por vários dias antes. A indefectível galinha com arroz no almoço para minha avó Adiles. As tias que auxiliavam nos preparativos, como a Conceição e a Tereza. A vida andava e se passava na cozinha. A cozinha recebia os amigos e ali tudo pulsava com mais cores, sons, odores e sabores.

Cr & Ag

Minha irmã Shirley aperfeiçoou esse DNA culinário. Pense em alguém com seis filhos e esposo… E sempre ter os pratos ao gosto e predileção para cada um deles. E ainda preparar a casa para os momentos festivos tanto em decoração quanto em culinária! A Copa do Mundo fazia sua casa em verde-amarelo, assim como uma variedade imensa de pratos de rara beleza e eterno sabor. Seus dotes na música e nas artes plásticas eram uma continuidade da infatigável e amorosa mulher que fazia do ofício de dona de casa algo superior a qualquer outro.

Cr & Ag

Eis que dolorosamente vejo esse mundo mudar. E aqui o cronista avisa que não escreve para ser apoiado ou contrariado, mas para o leitor pense e busque os seus próprios entendimentos. Voltando, vejo o mundo piorar. As mães abandonaram os lares e as cozinhas transformaram-se em peças de decoração. Vai à cozinha “quebrar um galho”, quando estão cansados das pizzas ou do comer das cozinhas anônimas e dos bufês de rodízio. Antes, o galho que se quebrava era somente da lenha colocada nas chamas do fogão, hoje é um território que foi se apequenando dentro das casas e apartamentos e algum dia colocarão a geladeira e o micro-ondas em outro lugar e… O homem a cozinhar por diletantismo ou por obrigação de dividir as tarefas do lar. Relacionamentos em que o sexo e o amor pouco irão se sustentar sem outros fundamentos. Tão simples quanto telefonar e solicitar uma pizza é trocar de parceiro-cúmplice-amante de todo tempo. O provérbio popular de cama-mesa-banho deveria ter outra ordem iniciando pela mesa da cozinha do lar. Hoje alguns filhos lembrar-se-ão do amor com cores e sabores de mães e de avós, mas e amanhã nos lares desfeitos e fugazes como fast-food e muitos no pó e na fumaça da insidiosa e lúgubre epidemia do desamor? E você o que cozinhou para seu homem e para seus filhos hoje, ontem, esta semana, este mês ou… este ano?

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