Com a faca entre os dentes – Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião – 26 Setembro 2012

26 SETEMBRO 2012 – COM A FACA NOS DENTES – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

“Com a faca entre os dentes”

V

amos pintar o quadro para que todos entendam a situação ou o emprego dessa expressão idiomática ou figura de linguagem. Conduzida às telas de cinema nos quadros em que o soldado ou o guerreiro coloca a faca entre os dentes e parte para a batalha final. Talvez rastejando sob o arame farpado num campo minado, ou escalando algum penhasco, ou ainda, como o Tarzan dos Macacos saltando do cimo de uma árvore para um rio em que o gigantesco crocodilo ameaça devorar a bela Jane. Difícil seria nadar com a faca ou o punhal numa das mãos ou ainda na bainha. Quando a criatura está com “a faca nos dentes” sabe-se que parte para o tudo ou nada, matar ou morrer. Adrenalina fervendo nas veias e artérias, músculos retesados como a corda do arco de Ulisses, a animalidade antes contida no âmago do ser humano está agora associada a mais direta racionalidade transformada no derradeiro esforço de vitória.

Cr & Ag

Há que associar duas outras expressões para esse evento da maior superação humana: “sangue nos olhos ou os olhos injetados de sangue” e “gosto de sangue na boca”. Sem nenhuma conotação vampiresca dessa juventude seduzida pelo fenômeno Eclipse, vemos a forma como sentimos ou expressamos sentimentos tão longevos como primitivos da alma humana. O exercício da língua está longe de ser o ato de fofocar, falar dos outros, ter a língua ferina ou de serpente, mas expressar-se e entender o que é expresso em sons e graficamente. Principalmente num universo de brasileiros em que cerca de 70% até leem, mas não entendem o conteúdo de uma página de leitura. Sabe-se – o mal afamado analfabetismo funcional. Nem os ditos universitários escapam dessa arapuca da péssima qualidade da educação brasileira.

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Imaginemos uma linha em que numa das extremidades está a criatura com “gosto de sangue na boca e sangue nos olhos e com a faca entre os dentes”. No extremo oposto está a criatura que já “arriou as cuecas”. Sim, pois as calças deve ter baixado algum tempo antes. Se ainda quisermos piorar para a desgraça, acrescenta-se: – “está de quatro” ou “na posição em que Napoleão perdeu a guerra”. Entendem algumas das fantasias do imaginário masculino para o exame de próstata? É a entrega absoluta, total. A perda completa da última trincheira, a criatura está ao bel prazer do seu “algoz”. O pavor mórbido da “enrabação” ou da sodomia e “ficar abaixo do fiofó do cachorro”. Na ancestral disputa entre o racional e o sentimental, tende a vencer o último. Bobagem? Certamente para quem “não está com o seu na reta” – como dizia o técnico Fernandão em desabafo na mídia depois de vexatória partida do Campeão de Tudo.

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E na parte intermediária daquela linha imaginária que antes traçamos? Ali estão alguns “mordendo ou mastigando o freio”, “suando sangue”, “caindo pelas tabelas”, “quase dando os doces ou entregando os pontos”, “a mil pelo Brasil”, “a fusel”, “botando pra quebrar”, “ajoelhou tem que rezar” e um sem número de outras formas de manifestar os sentimentos e as realidades de cada um. Lembrando sempre que “pimenta nos olhos dos outros é festa”, quanto mais em outros orifícios. É a vida! Faz parte da caminhada nessa passagem terrena de alegrias e expiações. De festa e de velório. De plantar e de colher. De votar e ser eleito. De mandar e de obedecer.

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O exercício da democracia brasileira ajunta-nos nos bocais das urnas. Somos um povo de fé (“fé demais!” – T. Jordans) e acreditamos que se os canalhas forem eleitos eles darão “um jeitinho” para melhorar a nossa vida. Temos tanta fé que acreditamos que aqueles sem capacidade para saírem do atoleiro da incompetência e da ignorância, poderão com a graça do voto adquirir a sabedoria e usá-la em nosso proveito. Idolatramos ícones, santos do pau oco e dos pés de barro e fazemos cortejos para beijar-lhes as mãos mal lavadas. Mas os tempos estão mudando… a suprema corte do país vê crime onde antes só havia “o que todos fazem”.

Participe:

Médicos sem Fronteiras

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