2012 – 12 – 05 Dezembro 2012 – Cavando a própria sepultura – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Cavando a própria sepultura
Se você está chocado com o título dessa crônica, então atingimos uma parte do nosso objetivo. Esse é um dos impulsos básicos do animal contido em nós, reagimos à dor. Fazendo a imagem do quadro de alguém com as próprias mãos cravando os dedos e as unhas no solo e arrastando as golfadas de terra e a cova aumentando… Dolorosa imagem numa época natalina? Terrível ainda mais quando nos afloram sentimentos de alegria e de festividades. Outro dia, por vários dias passo por uma dessas lojas de crédito, várias pessoas aguardavam dentro e na calçada para serem atendidas. E isso se repete. As festas natalinas induzem e obrigam que a criatura compre e dê presentes para os amigos, parentes e até para os inimigos. Geralmente um abraço, um aperto de mãos, um beijo ou uma flor são insuficientes neste consumismo desenfreado e estimulado. Lembram que um ex-presidente estimulava as pessoas comprarem? Certamente sua vontade estava também no caos anunciado, do endividamento, das angústias por ter gastado demais e além das suas posses e possibilidades, mas aí seria culpada “a sociedade de consumo e o capitalismo selvagem” e essas rezas tão antigas quanto superadas, mas ainda úteis para alguns.
Cr & Ag
Os olhos esbugalhados e as pupilas escancaradas numa ânsia de consumir cada vez mais e fazendo dívidas no cartão de crédito, no cheque pré-datado, no financiamento longo com carência melosa e atrativa. Há quem acredite que o mundo terminará neste próximo dezembro e as dívidas ficarão para são nunca. A orgia consumista cobrará logo ali adiante a conta em moedas muitas vezes impagáveis ou inalcançáveis e sempre em noites mal dormidas, no consumo de tranquilizantes, na escassez da libido, nos suores e diarreias, nas dores de estômago e um espinhel de sofrimentos para quem foi pescado pela sedução. Sabe aquela comida que até parece apetitosa, mas que nas primeiras garfadas já se mostra salgada ou apimentada demais? Muitos já sentem isso antes de curtir suas compras e sua gastança. Por trás desses sentimentos há outro tão ou mais enganador: – o direito à felicidade!
Cr & Ag
Essa é outra tecla gasta e de escassa racionalidade – o direito à felicidade! Quando a mente descobre essa saída, essa fuga do dever e da disciplina, a boca se enche de razão – “eu tenho direito à felicidade”. O ser humano não se basta jamais. A maioria, pelo menos. O direito à felicidade transita pelos mais diversos caminhos, desde o esforço no trabalho e no banco da escola quanto pelas ruelas da droga e da prostituição. Pela alegria de estar com quem se ama e nos ama como com a depressão mascarada de estar com quem idealizamos, mas trará um futuro tormentoso. O espírito do rebanho é algo antigo e poderoso, pois se “outros fazem, por que não fazemos também”. Esta motivação infeliz leva a manada a acompanhar seu líder ao despencar no precipício.
Cr & Ag
Somos seres emocionais em busca da maior racionalidade ou somos seres racionais seduzidos e devotados ao emocionalismo? O automóvel é um grande sonho de consumo e de realização pessoal, mas andaríamos num veículo com os freios deteriorados ou sem freios? Nosso corpo e nossa vida são veículos de passagem nesta viagem terrena e os freios estão inicialmente na visualização, no aperceber-se, no tomar consciência e ao reagir quando sabemos dos riscos inerentes as nossas atitudes. Evite-se gastar o que não possa pagar não se aposte neste jogador cruel chamado de futuro, delicie-se em ser mais e melhor e não de ter ou apresentar. Somente você tem o poder de decidir a estrada a seguir e a cama onde deve repousar. Amor jamais se compra, assim como a paz do espírito.
“ENCURRALADO” – FILME DE STEVEN SPIELBERG