2013 – 09 – 04 Setembro 2013 – Casualidade – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Casualidade
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– Q |
ue casualidade estarmos aqui… estou para te telefonar a tanto tempo! – dizia aquela mulher para outra. Casualidade e coincidência são primas-irmãs da nossa necessidade intrínseca de simplificar etapas, de cortar caminhos e até de acreditar em sorte. Eis que no outro extremo deste pêndulo ou prato desta balança está o azar, seu primo-irmão do assumido fatalismo. ‘Nem tanto ao céu e nem tanto à terra’ – apregoa a filosofia popular. Há muito de comodismo nessas reações. Há uma tendência em atribuir ao imponderável da silva os acontecimentos de nossas existências. Assim o fardo torna-se menos pesado e geralmente menos doloroso.
Cr & Ag
O quanto você acredita em casualidade ou até em fatalismo está atrelado ao seu entendimento. Quando alguém se direciona para consultar com um médico, telefona e agenda aquele profissional de sua escolha, sai de casa, trânsito difícil, estacionamento ainda pior, paga a consulta e eis que está ali sentada defronte o seu médico como um paciente. Toda esta cadeia de eventos do paciente e uma extremamente longa do profissional que desde uma série de escolhas e caminhos de escolas e faculdade de Medicina, cursos e extensões, colocou-se ali naquele momento com aquela pessoa. Num ambiente inexpugnável em que se estabelece essa relação médico-paciente ou paciente-médico de plena confiança, respeito e dedicação. Nada diferente tudo absolutamente proporcional para cada ofício. Não há casualidade. Nem fatalismo. Até no singelo SUS (“Sua Última Shance” – num grafite).
Cr & Ag
Somos, profissional e paciente, professor e aluno, responsáveis por aquele momento. Toda a cadeia de escolhas positivas ou negativas, neste tempo ou em outros planos existenciais, traz-nos para este singular momento de auxílio mútuo. Leu bem! Auxílio mútuo. Os benefícios nunca serão somente do paciente, nem do médico. Novamente uma cadeia de eventos se desenrolará ‘ad infinitum’. Faça a imagem da pedra caindo ou sendo jogada no meio de um lago e as ondas concêntricas geradas a partir desse evento. Tanto as margens como o fundo do lago e o universo que os acolhe sentirão as vibrações maiores ou menores dependendo da força inicial e da captação em qualquer distância.
Cr & Ag
A lágrima que Maria derramou pela dor do filho amado persiste no coração da humanidade ontem, hoje e sempre. Casualidade ou nossas escolhas? Fatalismo ou culpa dos outros? Sempre nossa responsabilidade. Poderia pensar em ‘casualidade’ o fato de atender um único paciente numa manhã de sexta-feira? Jamais! Uma primeira consulta de um jovem pai, esposo, trabalhador rural e agora evangélico. Sempre um irmão. Perambulou por vários médicos, emergências e laboratórios nesse último mês. A dor abdominal não aliviava. Ao contrário, parecia piorar e se agregava com outros sintomas. Já trazia um diagnóstico – hepatite C e toda uma carga crítica de informações e pleno desalento. Trazia também o estigma da culpa – ex-viciado em drogas injetáveis. Abandonara o vício satânico ao tornar-se evangélico. Tendência a renegar-se de si e de Deus. Certamente não necessitava somente do médico e de uma receita rápida e impessoal. O universo tramou esse encontro para um momento em que o tempo seria somente o necessário. Sem atropelos ou interrupções. Sentíamos isso e os olhos da sua esposa traduziam essa imperiosa necessidade. Somos responsáveis por nossas escolhas e por nossos momentos e o futuro estará tramado assim pelas leis do Criador, mas sem casualidades.