2013 – 12 – 25 Dezembro 2013 – O sol na meia-noite – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
“O sol na meia-noite” – um Natal em Viamão
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ei lá que ano de Deus ou do Diabo isso aconteceu, mas que aconteceu isso eu não tenho nenhuma dúvida, pois meu avô contava que o pai dele sabia pelo pai dele.” – assim aquele homem quase centenário balbuciava pela derradeira vez essa história aprisionada em sua alma. E continuou: “A revolução tinha acabado no papel falso que assinaram, mas continuava a matança de irmão contra irmão. O rio-grandense sempre foi um deserdado no Brasil e tratado como estrangeiro ou escória por muitos lá do centro do país. Esquecendo que os bandeirantes, portugueses e brasileiros de tudo que é rincão veio fazer família e trabalho aqui com negros e índios, mestiços e castelhanos. Na nossa veia corre o sangue de sobreviventes e de guerrilheiros. E foi um desses desgarrados que aportou por aqui. Seu nome real jamais se soube, mas atendia por Nego Bento e sempre abria um sorriso de coivara e um riso rouco pelo palheiro aceso entre dedos mutilados. Falava pouco e ria muito. Ria até demais, talvez a enorme cicatriz que deformou sua orelha esquerda explicasse algo. Arrastava a perna esquerda e por vezes puxava-a com a mão, pois parecia que ela queria ficar dormindo em algum banco ou num pelego encardido.
Perambulava aqui e ali. Não recusava uma caneca de café quente ou uma broa de polvilho. Ainda mais um prato com batata doce e feijão mexido. E… quase esqueci! Tinha o Cão. Isso mesmo, um cachorro que atendia por Cão. Podia assobiar ou chamar ou oferecer comida, olhava com os olhos tronchos e enfiava o focinho entre as patas. Era outro sem eira nem beira. Mas nunca se largavam. Onde estava um, podia saber que ali perto estava o outro. E antes do Nego Bento comer, o Cão comia. Algum serviço descarregando as carretas no armazém, costeando ovelhas nos Fragas ou lavando a Igreja. Ele tinha um amor e uma dedicação especial à Igreja e ficava horas a fio olhando para uma imagem de Nossa Senhora. Chegava a dormir e cair do banco. E o padre deixava o Cão entrar com ele. Era o único cachorro da cidade que entrava na Igreja desde que não fosse dia de festa, casamento ou missa.
E assim como Deus fez primeiro os bichos e depois as pessoas, a maldade sempre existiu e gente maligna fazia troça feia com o Nego Bento. Certa feita um tropeiro deu-lhe um baita palheiro que chegava ser loiro de tão bonito. Ele acendeu com gosto e na terceira ou quarta tragada não é que a coisa explodiu numa fumaceira preta. O infeliz botara pólvora no cigarro e quase cegou o homem. Ele só parou de rir e quando sentiu as presas do Cão enterrar no braço maldito. Puxou da adaga para sangrar o cão, mas foi calçado com dois canos apontados para seu peito e enxotado da vila com a criançada atirando pedras.
O inverno não tá só no tempo, tá no coração de muita gente também. Mas um frio temporão saiu da goela dos castelhanos e o minuano abriu o berro nas cumeeiras e nas esquinas. Uma garoa tisnada de cerração escondia o sol. Lembro que na enchente de 41(1941) dezembro azedou de vez e fez dias de inverno. Mas voltando ao sucedido. O pessoal puxou as lãs dos roupeiros e dos baús e forrou as camas e as tarimbas com os melhores pelegos. Uma tal de Rosa, beata por demais, presenteou com um casacão e roupas do finado marido para o Nego Bento. As botas não serviram. O pé era grande uma barbaridade. Os fogões roncavam e a lenha era picada com machado afiado e o cheiro de doce estava em tudo que era casa. As figueiras ficaram peladas. O Natal se avizinhava e se presenteava com compotas, chimias, goiabadas, beijus com amendoim ou até uma peça de tecido encarnado.
Nego Bento passava mais tempo na Igreja, ali no altar da Senhora da Conceição. Ria e cochilava. Por algum motivo começou a enjeitar a comida. – “Vem Nego Bento, a boia tá gostosa demais!” – ria e ficava sempre no mesmo lugar com o Cão de companhia. Preparavam a Igreja para a Missa de Natal. Seria o primeiro Natal dele aqui na terrinha. Não parecia doente. Nem tosse tinha mais e ali mesmo nunca fumava palheiro. Foi uns dois dias antes do dia que Jesus Cristo nasceu que aconteceu. O pessoal escutou um toque de música tarde da noite e o vento tinha sumido como por encanto. Uma noite estrelada e a lua era um clarão só. Parecia um sol na meia-noite. Acenderam os candeeiros e abriram as janelas. Todo mundo ouvia a música. Vinha da Igreja. O pessoal se foi pra lá e o padre abriu as portas. Por uma tábua solta no forro e alguma telha deslocada pela ventania entrava a luz da lua e iluminava o Nego Bento e o Cão. Sentado com a cabeça do Cão na sua perna. Os dedos enlaçados e o riso aberto para a santa. Parecia que a Nossa Senhora e o Menino riam para ele. Nem parecia morto. Pouco tempo viveu aqui, mas trouxe uma luz nunca vista. A gente geralmente lembra das maldades e esquece as benfeitorias. Vamos lembrar do Nego Bento! Sabe-se que o padre sepultou ele em algum lugar da Igreja. Claro que escondido do Bispo. Tô lhe contando pro amigo contar aos outros.” Contei!
Feliz Natal e maravilhoso 2014!