2014 – 01 – 08 Janeiro – A fuga da rotina – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
A fuga da rotina – Especial de Verão e Férias
|
“N |
ão vejo a hora de me aposentar e pendurar as chuteiras. Não aguento mais essa rotina do trabalho.” – dizia-me um amigo. As pessoas trabalham a vida inteira mirando chegar aquele momento mágico em que não terá horário para acordar, para refeições, para sair e chegar. Enfim, fazer o que bem entender, fazer o que lhe der na telha. Isso é real, mas é verdadeiro? Ou o nosso inconsciente planeja e deseja algo diferente do que expressamos? Estamos naquele período do ano em que o gaúcho precisa urgentemente de férias. Há um sentimento coletivo de que as férias no Rio Grande do Sul são de final de dezembro até meio de março. Há gaúcho frustrado e querendo comer o fígado de alguém – como a secretária de educação do Colares, a Neusinha – se o obrigarem a férias em qualquer outro período do ano. Até parece bobagem, mas infelizmente não é.
Cr & Ag
Depois dessa pausa do parágrafo e um novo gole no chimarrão ou na cerveja gelada, convido-o para se perguntar: quero rotina ou o que quiser e quando quiser? Nossas engrenagens interiores nos levam sempre para a rotina. Algum tipo de rotina. Qualquer rotina, mas sempre várias. Se você é casado ou tem companhia fixa está numa rotina que para alguns é bela e para muitos outros é cruel “enquanto durar”. Mas se a criatura sai de um relacionamento, até pode passar algum tempo à deriva ou no tiroteio, mas invariavelmente quer uma nova companhia e reestabelecer a rotina. Seria a necessidade de menos imprevistos? Conhece-se o bom e a bronca e assim é mais fácil de lidar? Que te parece?
Cr & Ag
Usamos o mesmo caminho para ir e voltar. Gostamos do meu ou nosso restaurante. Idem do barzinho e nem se fala do Xis do Gordo. Toma-se a mesma marca de cerveja e “como é que alguém toma isso aí”. Temos um padrão para assar o churrasco. Ops, aí está a palavra chave – padrão. Repito – padrão. Necessitamos estar num padrão e não no modo aleatório. Até ser aleatório, como trocar de homem ou de mulher todo mês ou final de semana exerce o poder de um padrão. Está eriçado/a? Vamos em frente. A criatura fica fora do país e quando retorna sente que “quase morreu com saudades do feijão com arroz”. Tem criatura que indo residir fora do Rio Grande aprende a tomar chimarrão, usar pilcha, puxar no sotaque, gostar de ser reconhecido como gaúcho e até fazer um curso de danças de fandango. É a coisa mais linda do mundo ver a criatura picotando uma chula. Oiga le tche!
Cr & Ag
Veja como até os animais não humanos tem um padrão ou estabelecem rotinas em suas existências. Minha gata Neve vai para a beira da minha cama todas as manhãs exigindo que eu fique um tempo passando os pés em seu lombo e barriga. E carinhosamente esfrega-se com o corpo e a cabeça. É um ritual gostoso para nós dois. Tendemos a repetir aquilo que gostamos e até repetir os mesmos erros. É o caminho do aprendizado? – Eu não sou uma máquina pra tá sempre repetindo… – tisnava a voz aquela amiga. Somos máquinas sim. As máquinas melhor (ou até pior para certos conceitos) evoluídas da natureza e é justamente o desenvolvimento de rotinas ou de padrões persistindo a necessidade de mudança que nos fez evoluir e sair do marasmo físico e espiritual.
Cr & Ag
Especialistas em repetições, hábeis em evoluir padrões ao sentirem esgotar-se aquela atividade tendem a buscar, tendem a mirar, tendem a criar novas rotinas e novos padrões aperfeiçoados pela tentativa mesclando acertos e erros.