2014 – 01 – 22 JANEIRO – Um banho de mar – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Um banho de mar – Especial Férias e Verão
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h que maravilha é um banho de praia! Esperamos tanto tempo, zurrando e pagando e sendo vampirizado pelo governo para agora estar aqui neste lindo litoral. Ao norte é praia e ao sul é praia. Todo esse marzão na minha frente e esse povaréu do cão entupido aí atrás brigando por um espaço na areia. Como? Duvidas de mim? Tem areia sim e muita, só precisa remover os trocentos guarda-sol, as esteiras, as cadeiras, os montes de cascas de abacaxi e coco (com e sem acento) e um meio metro abaixo tem areia de praia. Quem sabe até alguma tatuíra e um marisco sobreviventes! Praia vale tudo, isto é, quase tudo. Teve um cara que ao fincar um pau de guarda-sol arrancou o biquíni de uma baranga camuflada. Como camuflada? Seguinte, o biquíni é de cor de burro quando foge depois do banho no nescau que pintou toda a criatura, mais um bronzeador paraguaio e a areia do nordestão para terminar de empanar…
Mas como correspondente especial para zonas de guerra, sou bem pago pelo Pedrão e pelo Edinho, tenho que relatar tim-tim por tim-tim tudo que vejo, sinto e cheiro. E que cheiro brother! Agora mesmo escapei do atropelamento dum gordo imenso com o sovaco mais azedo que bacalhau de defunto. Cara, levei quase uma hora num 400 metros com barreiras de tudo que é tipo da rua até aqui onde estou molhando meus pés no nescau. Ops, falei nescau? Nada contra, é da vida e da morte, “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu” – acho que é por aí uma música do Chico Buarque – e trabalho é trabalho. Mas esse mar é estranho, o marrom (redundância) nescau todo mundo conhece, ondas nescau tudo bem, mas que cheiro! E tinha uma placa lá fora dizendo “Própria para Banhos”. A gente acredita no governo, né mesmo?
Depois de cinco horas no congestionamento da estrada isso aqui é um paraíso. Meio poluído… Mas no paraíso original só tinha o Adão, a Eva, a minhoca anabolizada e o bicharedo e cada um na sua. Aqui é cada um na de todos. Intimidade zero. Tem um surfista aqui ao lado contando a “noite de amor” com um “salva-vidas temporário”. A dama dos cabelos mechados e biquíni oculto pelos babados mostra as unhas decoradas para o tiozão da cadeira beliche. Isso se ele conseguir ouvir, pois estacionou dois magros e cabeludos, tatuados e com piercing pra tudo que é lado e buraco com um som pela alça. Saca som pancadão? Pior.
O pessoal curte o marzão. Isso é terapêutico. Imagine o que vai dar de trabalho para os dermatologistas! Ops, tá saindo mais um atropelado por uma prancha de surfista e desmaiou novamente a garota engasgada com churro. Vou tentar um buraco mais adiante. No bom sentido e sem maldade. Aqui é solidariedade mesmo. Já recusei pipoca, melancia, pastel e torresmo com chimarrão. Me dói recusar um chimarrão, mas a boca do vozão parecia com aquela do zumbi do Resident Evil. Acho que só o doutor Emílio pra aguentar aquela boca mais que braba. Boca cavernosa como dizem na minha Viamão City.
Sei que vocês estão querendo saber se vou tomar banho aqui nesta zona neutra de tão perdida entre Magistério e Quintão, afinal sou pago para correr riscos e fazer rabiscos. É que tô tomando coragem antes de furar uma onda. Se conseguir chegar até a onda… Até comprei um calção novo no Salah pra esta aventura e não posso decepcionar. É como o cara que entra no Globo da Morte ou toma cerveja na jaula do leão, tem que tá preparado pra desgraça e “vamo que vamo”, como diz o Arigó da Faxina. Estou entregando meu bloco de assombrações, digo, anotações e a caneta para um colega de infortúnio e… Fui! (Nota do Editor: o repórter Fraguinha está internado na UTI do nauseocômio da municipalidade, há boas chances de sobreviver e retornar ao nosso jornal).