2014 – 01 – 29 Janeiro – Um churrasco na praia – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Um churrasco na praia – Especial Férias e Verão
Nota do Editor: Nosso intrépido repórter Fraguinha segue internado, agora com diagnóstico de estresse pós-traumático. Vide coluna passada. Escalamos o Arigó da Estalagem para essa singela e instrutiva reportagem litorânea após sobreviver a uma pelada com o Serginho na Augusta.
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e pra mendigo não falta cachorro, pra pobre não falta parente e é justamente na hora de queimar uma carne numa brasa faceira que aparece parente e parente do parente e até ameaça de parente como aquele irmão da namorada do Zé da Abigail. Parente e aposentado. Aposentado é outro que aposta no churrasco de parente e de vizinho, “pois a grana do governo não dá nem pros remédios e pras fraldas”. Como? Isso aí, fraldas é artigo de uso e descarte nas duas extremidades da vida, mas voltando ao churra. O pessoal vai se chegando como quem não quer nada, “passei por passar”, “vim dar uma mãozinha” e “te empresto meus espetos de inox”. Solidariedade sobra em rancho praiano. O Carlinhos da ambulância trouxe 3 kg de salsichão, meia dúzia de cervejas e as cinco enteadas com os namorados. A Lurdinha da estética sempre traz a farinha, principalmente a recolhida dos churrascos anteriores. – Tudo se aproveita e nada se perde e eu não sabia de nada – não lembro bem do autor dessa lei da física ou da política.
O som bombando. A criançada correndo alucinada e trombando nas redes com os namoradinhos enroscados dentro num entrevero sem aparte. Os homens em volta do fogo e a cerveja e o limãozinho correndo solto como língua de sogra. A churrasqueira meio improvisada, volta e meia desarmava e caia uns tijolos até que apareceu o Gringo da fruteira com um tonel cortado ao meio. Delírio geral! Mais um sal na costela e um bronzeador nas costelas e na bem nutrida busanfa da loira oxigenada quarando em pleno sol de pós meio-dia. E o fogo ardendo e a ceva correndo solta como pulga em bombacha. E eu ali, em seco! Não bebo em serviço, ainda mais se o Edinho e o Pedrão descobrem e me cortam o salário e essas mordomias na praia.
A bacia de maionese começou a ser esvaziada e faltou pão com alho, mas sobrava bafo. Saem dois guris na pernada pra buscar mais pão. E a fila do banheiro empacou. “A bisa se adonou do trono” e escutei alguém berrando atrás do varal de roupas: “A fossa estourou!” E saiu um magrão puxando a bermuda mais a filha do gringo – descabelada e vermelha como a camiseta do meu Colorado destruído pelo Luigi. Ninguém deu muita bola para o sucedido. O trago fazia resposta. E já que a carne é fraca e pouca (muito pouca)… o trago alivia as durezas e as faltas de durezas da existência (essa foi poética, olha eu aqui ALVI!).
“Quem comeu comeu e quem não comeu tá comido!” – berrava rindo o Ari mecânico com uma caneca de cerveja, ou o que sobrou dela. E aí foi um Deus no acuda, um salvem-se quem puder, parecia a turma do Mensalão atacando os cofres do Brasil, era gente tropicando uns nos outros e derrubando cadeiras. Teve gente se escondendo com uma costela para roer debaixo do avarandado. Enquanto ajudava a abanar uma gordinha dos seios fartos levei uma garfada na orelha. Coisa feia de tão medonha. Briga de parente é como revolução em convenção de partido político, não há mortos, alguns somente feridos principalmente onde não se enxerga.
Foi então que encostou duas viaturas e desceram os homens. Quando o afro gigantesco puxou do cassetete me atirei no chão e fingi de morto tipo cachorrinho com as patinhas pra cima. Senti que o pau ia cantar, pois quando brigadiano saca das ferramentas é pro trabalho e vai sobrar lombo ardendo. Mas foi alarme falso, também era parente e trouxe os amigos pro churrasco “em família”. Ânimos acalmados, bola no meio de campo e marcaram “novo churrasco legal. (Enviado especial dessa reportagem praiana – Arigó da Estalagem)