2014 – 03 – 19 Março – O meu café – Parte 2 – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
O meu café – Parte 2
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doro um café de beira de estrada. Aquele café de caminhoneiros alojado nas garrafas térmicas ou nas seculares máquinas de café que na verdade apenas mantém quente o café previamente feito. Nos saudosos tempos de motociclista, o aroma do café trespassava a bruma matinal e nos acompanhava no dorso da moto por longos quilômetros. Café geralmente de uma humilde casa de agricultor traz sonhos realizados. Muitos motociclistas relatam esses mesmos sentimentos, como o maior motociclista viamonense – Luizinho Zavarize. A delícia de estacionar a amada moto, abastecer seu tanque e abastecer nosso corpo e nosso espírito com um bom e perfumado café. Por vezes, um pouco doce demais. Nada é perfeito aqui.
Cr & Ag
Você deve ter o “seu café” como eu tenho o meu. Um poeta escreveu e vaticinava: “depois do sexo, um cigarro e um bom café”. Cigarros matam cedo e deixam impotentes. A tendência era de poetas morrerem cedo pela tísica (tuberculose), mas bebedores de bons cafés tendem a ter belas longevidades. Para tudo há limites. Inclusive para o amor? E uma mulher te cativa também pelo seu café. Veja uma mulher fazer um café! Há um ritual próprio, peculiar em preparar uma oferenda ao seu deus, que passa pela escolha do café, da cafeteira, das xícaras ou outros recipientes, guardanapos, a extrema limpeza das bordas e do pires, a colher, algum complemento para emoldurar a sua obra de amor e de cativar. A temperatura ideal não deve queimar os lábios nem deixar a sensação de frieza. A bandeja ou entregar a xícara na mão permitindo um encaixe de dedos ou o sutil toque de peles que se eriçam. Há mais. Muito mais. Permita-se ver e idealizar ou sonhar. Há homens que não atentam (até agora pelo menos) para esses detalhes e rituais. Outros não valorizam devidamente. Infelizmente. A vida se faz nos detalhes e se descortina nos seus mistérios nas suas parábolas.
Cr & Ag
– Pra mim, a mulher tem que ser boa de cama! – escuta-se. São relacionamentos pouco duradouros e nada com escassa ou ausente qualidade perdura. Já curti muito o café na arquibancada do meu time do coração. Tardes de sol escaldante, a moleira a ponto de fundir ou derreter, eis que passa o homem do café e ali meio que de lado, atravessado como lagarto em beira de estrada, derrama o café no singelo copinho plástico e sorvia aquele líquido maravilhoso e… refrescante. Meu pai Aldo, por vezes, levava sua caneca na mochila. Eu sempre me espantava com sua previdência e pessoalidade. Nas caçadas de marrecão, ele era o primeiro a chegar ao acampamento e os demais companheiros vinham extenuados pela várzea gritando pelo “café do seu Aldo”, pois o perfume magnetizava qualquer um. Uns sentavam num toco de madeira, outros jogavam-se nos sacos da bagagem, mas me deslumbrava vendo o prazer em seus rostos com os goles de café lentamente sorvidos nas canecas de alumínio ou de louça(porcelana).
Cr & Ag
Há lugares em que me encontrei com o meu café. Minas Gerais faz um café dos sonhos do mais renitente e empedernido mortal e em qualquer parada de beira de estrada ali te espera uma bebida própria dos deuses. O aroma te persegue pela estrada e quantas vezes parei a moto no acostamento, retirei o capacete e agradeci a vida que o Criador nos oferece. Outro lugar – numa ida à Santiago do Chile. Caminhei com minha esposa algumas quadras para que o GPS olfativo dela (muito mais sensível que o meu) localizasse a cafeteria da origem desse café mágico. A vida não está na riqueza dos bens materiais ou no poder dos homens sobre a natureza e os demais seres humanos, a vida está naquilo que desfrutamos e aprendemos e entendemos dela.
A magnitude da existência, a beleza inolvidável da vida está nas coisas mais singelas e humildes, nos detalhes que nossas acuidades e nossos sentidos nos mostram e o café, o meu e o teu, são parte da alegria de viver e de conviver. De amar e ser amado!