2014 – 04 – 16 Abril – O que você faria se… – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
O que você faria se…
humanidade se debate desde a aurora dos tempos num dilema repetido: – “Qual a minha hora? Quando vou morrer?” Em muitos casos sutilmente desviando o foco pessoal da angústia para o cofre lacrado da religiosidade: – “Quando o mundo vai acabar?” Desde o mais modesto, humilde e simplório ser humano de qualquer geografia e, principalmente, aos poderosos que do alto de seus impérios, de seus exércitos ou de suas coalisões partidárias exercitam seu poder, muitas vezes nefasto sobre os demais mortais. Bruxos, magos e qualquer Ivan Trilha é convocado para deslindar as tramas da vida e da morte. Em se tratando de futuro, sabemos que ele nasce a cada segundo num pulsar talvez infinito, não para todos. Como as águas de um rio indomável que se renovam no mesmo ponto a todo instante, o tempo flui arrastando ou não consigo as esperanças ou as vidas.
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O cinema nos ilustra como pessoas buscam o refúgio final na sua fé ou no coletivo dos templos em orações. Outros se entregam aos prazeres que seu ego necessita, seja com álcool, drogas, bebidas ou sexo. Outros ainda liberam a barbárie contida em suas almas e partem para as agressões, mortes, destruições de prédios, queima de ônibus e qualquer coisa que represente a sociedade ou a civilização. Muitos médicos e religiosos ouvem de seus pacientes e discípulos inicialmente a dor da enfermidade ou da desgraça ou, ainda, do final anunciado e previsto. Logo vem a revolta e a clássica indagação “por que comigo”? Pois a nossa humanidade tende em qualquer filosofia ou teologia a sofrer sempre pela culpa. Mesmo que a culpa não seja diretamente sua, assim como Cristo pela humanidade. Internamente, lá no âmago, no mais profundo, todos deveriam saber que quem fez errado, certamente pagará. O contrário compreende as benesses também do merecimento.
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Logo que o transe e o golpe são parcialmente assimilados, as pessoas se perguntam “como vou fazer daqui pra frente”. Entenda que não apontamos somente para a morte, mas também para perdas de órgãos, funções ou de pessoas absolutamente amadas e que entendemos como indispensáveis de nossas vidas. “Como vou continuar vivendo?” “O que farei da minha vida ou da vida que me resta?” As respostas são pessoais. Cada um tem a sua dor e para dor da alma não há aparelho nem equação logarítmica para medi-la ou quantificá-la. Aquilo que estraçalha o coração de alguém até pode ser insignificante ou corriqueiro para outro. E muitas vezes de pouco ou quase nada adianta o apoio de que “poderia ser pior”. Pior quanto Sherazade?
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Nós médicos somos inicialmente apresentados à Morte. E preparados, instruídos, conscientizados a respeitá-la. A principal disciplina ao entrarmos no curso é a Anatomia é que no profundo respeito das salas de anatomia, com os anônimos cadáveres e suas partes, que ali está o nobre destino de alguém como qualquer um de nós que foi acalentado num útero, alimentado num seio de amor, nutrido sonhos e esperanças, pranteado e agora se desnuda nas fronteiras do saber e da ciência em buscar saúde e vida para toda a humanidade. “Águas passadas não movem moinhos”, prega a sabedoria popular. No entanto, moinhos alimentam o presente e semeiam a vida do futuro. Para muitos brasileiros a desgraça anunciada é o Brasil de hoje da impunidade, da selvageria continuada, das invasões, dos mais de 60 mil assassinatos por ano (sem computar aqueles que não morrem no dia do trauma), mais de 60 mil mortos no trânsito (idem), corrupção generalizada e institucionalizada, da apologia ao comunismo e ideologias fracassadas, da transferência da culpa e da responsabilidade ou do “não sabia de nada”. Continua, com a saúde mais enferma dia a dia, das estradas modelo ERS 118 e dos governos que desgovernam, da educação de má qualidade e verniz ideológico do atraso, das migalhas das bolsas do povo para a locupletação das bolsas de políticos e partidos, da idolatria e das mentiras feitas verdades. Quer mais? Esse não é o “nosso Brasil”, daí entende-se quantos aspiram viver fora daqui, pois as esperanças são queimadas com o ônibus da história.
