2014 – 04 – 09 Abril – Amor tribal – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Amor tribal
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ivemos numa época de relacionamentos transitórios, fugazes, ardentes enquanto duram, de amor novelesco com festas suntuosas em castelos ou hotéis luxuosos. Para muitos resultam de imediato em dívidas acima de suas posses e de seus recursos normais. Há uma tendência crescente tanto de ostentar aquele “amor”, quanto se mostrar aos demais convivas. Há uma influência real dos folhetins novelescos assim como da mídia sensacionalista. Quantas vezes o leito vem antes das palavras, da liturgia da conquista e do cativar para amar? Os atalhos precedem os caminhos e pouco se investe um no outro. E isso começa cedo. Cedo demais, numa realidade de camisinhas e vacinas para crianças que são mulheres antes de serem meninas, adolescentes ou jovens na sua plenitude. É a situação do amadurecimento forçado e institucional. E ai de quem opor-se ou pensar diferente desse clero.
Cr & Ag
Os casais tendem a conviver ou viver em grupo. Conhecem-se no grupo e ali permanecem muitos deles. Outros vão se agregando aos novos amigos e novos parentes de um e outro. Convive-se até intensamente. Das singelas reuniões, aos passeios e às festas. Não da forma ‘normal’, não excessiva ou mesmo abusiva. Evidente que a maioria não identifica a situação, pois a juventude traz a necessidade da experimentação, da repetição até ao conhecimento. Muitos pais entendem o lado positivo pela segurança que o grupo terá diante da bandidagem desenfreada e impune. Alguns começam a perceber que o casal não se curte sozinho. Para o olhar mais acurado algo se identifica de que aquele relacionamento tem debilidades. Essas debilidades se manifestam numa “pedida de tempo” de um dos dois. Mas como se tudo está tão bonito e legal?
Cr & Ag
O casal deve se bastar por si somente e não pelos complementos. Quaisquer que sejam. Inclusive os filhos não ancoram indefinidamente um casal que não se basta. Menos ainda os amigos e as festas. Curtir a companhia, a presença, a convivência, a liberdade que um dá ao outro, o carinho e o respeito naturais, a ausência de ofensas, a plena confiança que passa inclusive pelas contas bancárias, entre outras características essenciais. Outro sintoma da vulnerabilidade da relação está quando um ou outro dedica tempo ‘demasiado’ aos amigos, amigas, trabalho ou outras atividades fora do lar (futebol, pescaria, clubes, etc). As explicações e justificativas abundam e parecem convincentes, principalmente pela necessidade de maquiar a situação.
Cr & Ag
A nossa humanidade nos torna vulnerável em qualquer época do nosso relacionamento. Não há imunidade nem vacina. Há entendimento e continuado esforço. Todos tendem a escapar da dor do conhecimento e da verdade e o relacionamento que se abriga em vida tribal tende a dissipar, mesmo que parcialmente, atenuar, postergar, empurrar com a barriga um relacionamento ferido ou enfermo. Precisa-se de cenários e de teatros e muita maquiagem. A sociedade de consumo e que consome necessita dourar a existência, tornar palatável a vida do casal e persistir naquilo que “pode não estar bom, nem ser ideal, mas que poderia ser pior”.