O causo da “Furiosa” – Edson Olimpio Oliveira – Coluna Tribuna Viva – 2a. publicação em 16 Abril 1998.

M E M Ó R I A

Coluna TRIBUNA VIVA. Jornal A Tribuna.

Dr. Edson Olímpio D’ Oliveira

O CAUSO DA ‘FURIOSA’ !

Diversos heróicos e amigos leitores tem solicitado a apresentação dos causos viamonenses. Esse que estamos apresentando, com pequenas diferenças conforme seu relator, é verídico. Lamentavelmente, as testemunhas estão falecidas.

Nosso conterrâneo estava em caçada de marrecões com alguns amigos acampados à beira da Lagoa dos Patos, no fundo do campo dos Abreu. O inverno estava pavoroso. Era frio e água. Chuva que Deus mandava. E assim enfiou uma semana e nada do tempo aliviar. A barraca cercada por drenos de tudo que é lado. Já não havia mais roupa seca. Lenha no fim. A comida terminando. Resolveram acabar o drama, voltando para casa. A várzea estava um mar. Emendava com a lagoa. Alguns albardões teimavam em manter a cabeça de fora, dando ilha para os quero-queros e alguma outra ave teimosa. Reuniram os badulaques e arrumaram dentro da camioneta. A máquina era uma Ford Modelo A Special (mais especial ainda pelas reformas feitas por ele) e chamada carinhosamente de Furiosa. Acorrentaram as rodas e a Furiosa veio rasgando várzea a fora. As correntes nas rodas jogavam leivas, grama e barro, a vários metros de altura. Os limpadores de pára-brisa não davam conta. Parecia um dilúvio. Os homens em silêncio se indagavam o que São Pedro tinha contra o Rio Grande, pois nunca tinham visto uma enchente como aquela. Seus corações pensavam que o pior ainda não tinham atravessado. Uma sanga, que em condições normais de inverno nunca passava de meia paleta no cavalo, agora deveria estar um rio, um amazonas. E dito e feito. Pararam no chap-chap mais alto. A água franzia correntezas com redemoinhos traiçoeiros. A maresia lambia uma pinguela de eucalipto, como a querer levá-lo para algum lugar, afogando-o. Ou como um franzino palito de dentes na boca feroz da inundação. Era um momento em que até os mais valentes poderiam suar(?) nos fundilhos. Mas ele não se desesperou.

—Para tudo há uma solução. Pensou. Pensou. Sempre aparece alguma idéia. E apareceu. Desceu sua fiel companheira com a caixa de ferramentas. Pegou uma câmara de ar. Uma taquara longa teve seus nós rompidos e transformada num cano. Uma lata de massa de tomate da marca Sicca, serviria. Blindagem na distribuição e no carburador. Taquara acoplada no cano de descarga e apontada para o céu. Na ponta da taquara, a lata de massa de tomate. Amarrou e fixou o volante da Furiosa. Bagagem amarrada. Engatou uma primeira com reduzida e apontou para a barranca da sanga, do outro lado. Acelerou e largou. A Furiosa embicou e afundou na água profunda. Somente se enxergava a lata na ponta da taquara. Toc, toc, toc, toc, era o barulho da descarga. Eles atravessaram pela pinguela e esperaram a Furiosa apontar na barranca. Ainda patinou muito para sair da correnteza. Mas venceu. Eles venceram. Pois depois o resto da viagem seria muito mais fácil. Esvaziaram o excesso de água do interior da viatura (!) e vieram abrindo água pela várzea.

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