A Negra e a Cobra – uma lenda de Viamão – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

M E M Ó R I A – uma lenda de Viamão

A Negra e a Cobra!

                                                                              O caso relatado a seguir pode ser considerado mais uma dessas histórias fantásticas que preenchem os vazios das conversas entre avós e netos. Ou que faz as horas dolentes de noites quentes terem muito mais conteúdo. E que o suor não seja apenas do calor, seja aquele suor frio que vão fazer, ou já fizeram as pessoas espiarem os cantos do quarto e, com o coração aos sobressaltos, horrorizar-se com qualquer sombra sob a cama ou a mover-se sorrateiramente.

                                  

 A vida era muito dura, para todos naquela fazenda. E seus trabalhadores e proprietários traziam no corpo e na alma as suas cicatrizes. Tanto da labuta sem férias ou qualquer descanso, quanto das feridas que teimavam em não cicatrizar pela Revolução de ‘23.  Ali trabalhava e vivia desde seu nascimento uma negra de nome Domiciana.

Domiciana! Ao balanço de seus 20 anos, tornara-se uma mulher de poucas e necessárias palavras. Isso desde o trágico acidente que matara seu marido. Contam que durante uma doma, o bagual xucro como o vento pampeano, empinara e caíra de lombo, prensando o cavaleiro debaixo de si. Com a bacia quebrada e hemorragia interna, morrera lentamente com a cabeça no colo daquela mulher. Nunca a viram derramar uma lágrima. Diziam que as lágrimas tinham sido enterradas junto com o finado. Mas ele havia depositado em seu jovem ventre a semente daquele amor aquecido nos pelegos, nas noites em que o vento minuano era o milongueiro mais escutado nas revessas daquele pampa.

Ninguém engomava uma camisa como ela e os beijus que fazia na velha tafona eram inigualáveis.  Também era de suas mãos que saía um churrasco de charque com aipim assado nas brasas do fogo de chão, o prato predileta da Vó Quita, a matriarca da estância. 

O Parto! Ganhara o filho:

solita, mas com Deus – completava fazendo o sinal da cruz com os dedos da mão unidos num toque final nos lábios e os olhos virados para algum ponto do céu.

Partejara no casebre de madeira no meio do laranjal. E com o sal da gamela e a água do poço, abençoou e banhou o filho. Assim como sempre escutara da falecida mãe que havia feito consigo. Da mesma forma a sua avó… Uma tradição familiar dessas mulheres acostumadas a lidar com a dor e a solidão. A solidão essa companheira inseparável de corpos e corações.

Sebastião! O negrinho, forte e vivo, chamou-se Sebastião, em homenagem ao seu pai. Mas logo ganhou o carinhoso apelido de Gorgulho pela esposa e filhas do estancieiro, onde disputava o colo e a atenção mais que potrilho de campeão.

Domiciana, sempre após o café dos patrões, tomava o seu canecão de café com leite e canela, onde mergulhava sete pregos enferrujados – uma simpatia da Vó Quita – para o leite ficar mais forte. E o Gorgulho estalava os beicinhos ao mamar e espremer aqueles formidáveis seios.

Lá por volta do 6º mês de idade, o negrinho parou de ganhar peso e ficou meio “murcho”. Domiciana amanhecia com os peitos quase vazios. De início achavam que estava “secando o leite”. Ela não sabia o porque, pois ele até:

— mamava de madrugada! – sustentava com olhar espantado.

Realmente, escutavam o negrinho chorar e após acalmar-se em certo período da noite.

A família estava preocupada, tinham tentado benzimentos, chás, simpatias e… Nada dava certo. Só faltava chamar o “doutor do povo”. Uma noite, Domiciana recolheu-se ao seu rancho meio febril.  O patrão ordenou ao peão Crescêncio que se ouvisse algo que fosse acudi-la.

Na madrugada, Gorgulho chorava sem parar. Crescêncio, que já havia dormido com o pala por cima, saiu à rua e espiando por uma fresta da janela de correr do casebre, sentiu o seu vivido coração quase explodir de pânico.  Acordou o patrão e foram todos, sob sua orientação, pé ante pé, espiar o que se sucedia.

A cobra! Uma cena capaz de arrepiar ao mais valente. A luz bruxuleante e fugidia do candeeiro de querosene fazia o réptil visível. Uma cobra. Uma cobra preta. Enorme. Enrolada num canto do travesseiro de palha. A mãe em sono febril. Delirante. O animal mamando na teta da negra agitada. Ao choro do negrinho, a cobra colocava o rabo em sua boca. Ele chupava a cauda parando de chorar. Depois de certo tempo, ao não sair nada, voltava a chorar.

Nas sombras malignas, o horror aumentava.

Arrombem a porta! – berrou o patrão a plenos pulmões.

Invadiram o rancho, matando a cobra. Após, em alarido, a peonada se reuniu na frente da mangueira vendo aquele enorme réptil pendurado nos varais do alambrado. Escorria sangue, pouco E leite, muito, de sua cabeça parcialmente esmagada.

Daí, em diante, a saúde voltou para Domiciana e Gorgulho.

A lenda. O causo. E o acontecido mais uma estória se tornou. Para muitos, somente uma lenda. Para quem viveu aqueles momentos, uma marca eterna, como a vida e os mistérios da natureza. Ainda hoje está enterrado na figueira secular daquela estância um facão com Gorgulho gravado no chifre da sua empunhadura. A árvore cresceu e abocanhou a lâmina profundamente. Ali está proteger todas as crianças e suas mães das serpentes.

Republicada em Dezembro de 2006 no Jornal Opinião e publicada na Coletânea Escritos III da Academia de Letras de Porto Alegre organizada por Benedito Saldanha em 2010.

2010 - Escritos III

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