M E M Ó R I A
A Série Memória reapresenta textos publicados em crônicas, contos ou lendas do autor em antologias e em jornal.
A Negra Paciência!
Uma Saga de Amor.
Os dias se arrastavam no tranco das carretas pesadas dos mascates que faziam a festa daquela vila em torno da sua capela. Campos de Viamão era um de seus nomes. Um povoado como tantos outros perdidos na imensidão de terras em que as únicas cercas eram aquelas marcadas pelas patas dos cavalos e pelo aço das lâminas sedentas de sangue. O gado criava-se solto e as marcas de seus donos refletiam o seu poder e a sua riqueza. O Brasil português terminava em Laguna numa fronteira invisível aos conquistadores da terra. O inverno precoce já se anunciava naquele abril dum ano esquecido. O hálito gélido do minuano estava se alternando com dias sonolentos de um mormaço que afogueava os cães, fazia a peonada buscar uma sombra de figueira e deixava os escravos com o compromisso de abanar os mais abastados.
Paciência! Somente Paciência era o seu nome. Os negros e escravos não tinham sobrenome. Muitos nem conheciam seus pais. Mas todos conheciam seus donos. A negra Paciência acompanhava esta família a duas gerações. Não mais existiam escravos nesta casa ou nesta família, ao contrário de muitos outros estancieiros. Os seios fartos mostravam sua aptidão de ama de leite. E foi assim que amamentou seu atual patrão. No lugar do seu filho devorado por uma febre maldita e fatal, o leite continuou jorrando para alimentar aquela criança prematura que perdera a mãe em seu nascimento. Uma mãe sem filho. Um filho sem mãe. – Uma curiosa armadilha de deuses preocupados com as guerras e alheios à dor e ao sofrimento das criaturas. – dizia em tom solene aquele homem que um dia envergou a farda do império como cirurgião e agora devotava sua vida cuidando de gente e de gado nessas paragens tempestuosas..
A casa grande guardava dentro de suas grossas paredes a alegria e muito da dor de seus moradores. O fardo inexorável do tempo já lhe arqueava as costas. Na grande cozinha um fogão faminto por mais e mais lenha permanecia sempre aceso. Dias e noites. A qualquer hora aquela mulher estava ali em seu posto. – Parece que tu nunca dormes Paciência! – dizia-lhe o patrão. Somente um sorriso afetuoso trazia a resposta. A grande chaleira de ferro sempre com água quente. Vezes que tropeiros e viajantes buscavam pouso ou quando o patrão retornava das longas viagens, a negra Paciência parecia saber a hora da chegada, pois ali esperava com sua deliciosa comida quente. O seu coração sentia como se fosse avó daquelas duas crianças filhos do patrão. A ternura e o amor devotado era resultado de um espírito grandioso manifestado numa vida de amor e perdão.
A Páscoa se anunciava. A negra Paciência já fazia os doces, muitos doces para a festa que fazia do povoado um lugar mais alegre com os risos das crianças. – Cristo daí paz e amor a esta família e liberdade a todos os meus irmãos. Faça com que todos os patrões libertem seus escravos como fez meu antigo patrão. – orava ajoelhada fitando a cruz dourada colocada em oratório na cabeceira da mesa grande.
Tiros de mosquetão. Berros de garrucha. – Cristo nos ajude! – gritou instintivamente Paciência. Bandoleiros portugueses e espanhóis infestavam essa terra numa sina de roubar e matar. Como se isso não bastasse, violavam as mulheres e queimavam as casas. Gritos de dor e morte. O patrão e a peonada estavam nas lides de tropeada. Logo os empregados estavam mortos ou dominados. Correu para o quarto da patroa encontrando-a com armas à mão e as duas crianças acotoveladas num canto. Essa parte da casa tinha portas e janelas de madeira reforçada. A algazarra e os relinchos de cavalo cruzavam pelo pátio iluminado por tochas de fogo como num ritual macabro. Escutava-se que já estavam dentro da casa. A patroa ordena-lhe que abra o alçapão escondido sob um grande tapete no assoalho. Por ali desceria ao porão e por uma abertura dissimulada poderiam buscar auxílio e proteção na vila. Manda-a descer com as crianças. – Vem patroa! Vem patroa! Por Cristo e seus filhos vem… – não pode concluir a frase. Da janela arrombada um tiro de escopeta tingiu de rubro a longa camisola branca que a luz do candeeiro fazia a vida tornar-se espectro.
Paciência caiu escada abaixo. Com a agilidade de uma pantera negra acuada protegendo sua ninhada ergueu-se com as crianças nos braços. O peso da idade dera lugar ao fardo da responsabilidade e do amor. Esgueirou-se pela fresta de pedras e ganhou a companhia da lua correndo pelo mato. O fogo voraz que se alastrava pela casa lançava fagulhas que como estrelas da morte singravam o manto negro do firmamento.
– Alguém está fugindo! – gritou uma voz assassina.
– Traga-lo! – berrou um demônio castelhano que comandava a horda.
Um homem esporeou seu cavalo. Não deixavam testemunhas vivas. Paciência conhecia aqueles matos como a sua cozinha. Trilhas que levavam à vila e à igreja eram como as veias do dorso de suas mãos. A cavalo seria mais difícil segui-la. Sabia disso. A vila já saíra de seu torpor, pois alguém tocara o sino da capela e vislumbrava-se o fogo lambendo o céu. – Ele está perto! – pensava com o coração em desabalada carreira. Escutava o mato se quebrando e o fôlego das ventas demoníacas em seu encalço. Sabe que será alcançada logo. Então, num derradeiro esforço esconde os dois irmãos no oco da velha figueira. Cobre-os com a sua sobre-saia negra.
Ali está o predador maligno frente a frente com sua presa. E sem esperanças um raio de aço e morte desce sobre Paciência. E mais outro. A negra ajoelha-se e vislumbra seu algoz com a lua ancestral por testemunha. O maldito pouco pode saborear sua vitória. Estampidos e o cheiro da pólvora preta se acompanham de densa fumaça. Ele tomba mortalmente atingido pelo povo da vila que acudiu. A montaria dispara alucinada.
A fenda fatídica jorrando a rubra vida que se esvaía descia do pescoço ao meio dos seios. O sangue afogava-lhe a respiração e com os olhos arregalados e a mão apontava para o esconderijo da figueira. A mão! Enrolada na mão direita estendida em flecha estava o símbolo de sua fé – um crucifixo. As crianças foram salvas. Ninguém mais sobreviveu ao cruel assalto. Logo o pai encontrou os filhos.
A negra Paciência foi sepultada com honras de heroína ao lado da patroa. E ali naquele local onde seu sangue foi derramado, ali naquele local que se chamaria de Várzea de Dom Diogo – hoje Campo do Tamoio, verteu na manhã de Páscoa uma fonte de águas cristalinas. Logo foi chamada e conhecida – a Fonte da Paciência! Durante muito tempo as mães iam ali buscar a água que aliviava ou curava seus filhos orando pela proteção da Mãe-negra. Ali seus irmãos libertos construíram um arco de pedras em gruta como o oco da figueira protetora. Um útero de pedras para crianças renascidas, libertadas do abraço da Morte pelo Amor.
O tempo pode toldar o fluxo da memória de um povo. O amor e a gratidão, mesmo com o esquecimento dos fatos, ainda marcam o local da Fonte da Paciência – a fonte do amor da negra Paciência! Alguns corações desejam ver ali a negra protetora na lua de Páscoa esquecendo que seu amado Cristo transformou seu sangue numa fonte de vida e esperança, sem espectros!
Nota do Autor: Viamão, uma cidade histórica, lembrada por ter sido Capital do Rio Grande do Sul, cantada em verso e prosa como a Setembrina dos Farrapos, tem a segunda grande Igreja construída neste Estado. Aqui no Centro da cidade, à rua Luiz Rossetti ainda se vê a Fonte da Paciência. Abandonada. Destruída. Reconstruída várias vezes pelo humor dos que preservam o patrimônio e a memória de um povo. Felizmente ainda está ali!