Memória.
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EDSON OLÍMPIO SILVA DE OLIVEIRA
O MEDO DE DENTISTA.
“Este é o local onde touro que é touro se ajoelha; macho que é macho se agacha e valente que é valente se lava suando como mulher parindo”.(T. Jordans).
Pois é, corajoso e intrépido leitor se há um local onde não existe valente é em consultório dentário. Tem criatura que até passa pela outra calçada só para não escutar o sibilar, o silvo sinistro daquela máquina, broca ou caneta de alta rotação, como é chamada pelos odontólogos. Ah, o barulhinho já nos deixa de cabelo em pé. Um arrepio gelado desce pelas costas e logo se manifesta com o sonoro: — Onde é o banheiro, moça? Tenho um amigo que diz: — Medo mesmo eu não tenho, o que eu tenho é receio da mão do dentista escorregar e me cortar a língua ao meio. Concordo que possa ser um medo real, pois falador como é, linguarudo como só ele, até que não faria mal tirar um meio metro. E o pessoal fica se entreolhando na sala de espera. Os pés parecem estar desacomodados dentro dos sapatos, pois não param nunca. Faltam bolsos para todas as mãos, alguns parecem ter umas cinco. Um outro está lendo a revista de forma invertida e ainda não se apercebeu. O rapaz alto, não tira o raibã, talvez para esconder alguma lágrima, apesar da namorada ficar lhe esfregando a mão e cochichando: — Calma, benzinho, só vai doer um pouquinho e se eu agüento tu também pode… E a sala de espera está cheia. E é fantástico quem está ali de sangue doce, ficar só assistindo. De repente, um grito: — AIAIIIIIIII! Um moreno forte, tipo Adilson Maguila perde o freio e sai derrubando uma velha porta a fora. No que é acompanhado por um rengo pálido. Pálido agora, pois ao chegar estava vermelho como gringo bebendo vinho em garrafão. Com o berro diminuiu quase a metade do povo.
Cada vez que o dentista abre a porta e chama o seguinte, um empurra a vez para o outro. Foi numa dessas que um carteiro perdeu dois dentes e fincou um pivô de ouro e não escapou da conta. Todos suspiram quando outro paciente entra. Estão como gado no brete. A única vantagem é saber que ainda não está na sua vez. A moça loira abana a mãe com uma revista: — Ela é meio nervosa e sempre ameaça desmaio quando a coisa fica preta; güenta aí um pouco, mãezinha, que vou buscar um guaraná pra ti tomar com um diazepam. Nisso sai um gordo com um lenço encharcado de sangue e cuspindo nos pés dos outros. A camisa está banhada de suor. O polegar segura um chumaço de algodão na boca: — To legal, o dentista é bom pacas, distraiu um queixal e não senti nada, queria pontear, mas não deixei, eu sou é macho. Durou pouco o regozijo. O homem amoleceu as pernas e emborcou derrubando os óculos do magrão. Nisso uma magrona que se escondia no canto, ao lado dos guarda-chuvas, arripiou-se, dizendo: — Estou com ameaça de gravidez e não posso fazer anestesia. E deitou o cabelo rua a fora. Levantava poeira com os chinelos. Nisso o cara lendo a revista virada, falou: — I, I, I, I, eee, eu tam-tam-tam-também mi-mi-mi vou a-a-a-aju-ju-dar e-e-ela. O desgraçado além de covarde ainda era gago.
Hoje, a situação é outra. Esses acima são fragmentos de memória de nossa infância e adolescência. Tudo agora é mais fácil. Tudo é moderno. Os cirurgiões-dentistas contam com aparelhos sofisticados. Até raio laser. Dentre em pouco, arrumaremos os dentes sem precisar abrir a boca. Tenho um amigo que se propõe a tratar os dentes dos pacientes pela Internet. Isso só para provar que dentista não trabalha só para boca aberta. É tudo com anestesia. Até anestesia geral. O indivíduo dorme e ao acordar está de boca nova. Dor, nem querendo. Nunca mais se ouviu a história do dentista calçar a criatura com o joelho no peito para tirar algum dente. Nem aquela do cidadão que sentou na cadeira e ao não saber qual o dente que doía, mandou tirar tudo ou até parar a dor. E dor de dente sempre foi algo terrível: — Muito pior que ganhar filho atravessado, — dizia a velha Benta. Teve um caso em Viamão do sujeito que se enforcou naquela figueira defronte a Escola Adventista por uma dor de dente. Era uma época danada. Mas ainda bem que vivemos em outros tempos. Mas somente uma coisa ainda não mudou: — alguns de nós continuamos com MEDO! Apesar dos dentistas serem essas criaturas fantásticas com suas brocas e raios maravilhosos…