2014 – 08 – 05 Agosto – Um verão extemporâneo – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
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Um verão extemporâneo – o Vento Norte
Muitos acreditavam ser o vento Norte um portador de moléstias, desastres e um mensageiro das desgraças. As pessoas desciam pela rua Dois de Novembro com flores nas mãos, um amargo de boca e sentimentos dolorosos realçados pela memória ou por esse hálito quente como vindo das bocarras do Inferno mirando os sólidos portões de ferro do Cemitério central. Outros gastavam os joelhos e calejavam as pontas dos dedos serrilhando as contas do rosário. Preces e lágrimas. Antes e depois. Os cães não acompanhavam seus donos e amigos e abandonavam-se numa sombra qualquer numa letargia de dar dó. A vida era diferente. As pessoas eram diferentes. Amava-se diferentemente. Amava-se por toda a vida. Muitos se amavam eternamente.
Cr & Ag
Hoje, domingo, amanheceu com um sol ardido. Ardido e dolorido, parcialmente pelo buraco na camada de ozônio, mas principalmente pelo vento Norte. A brisa das primeiras horas matutinas ganhou uma força especial, talvez açulada pelos demônios da dor e dos sofrimentos de alma e corpo, e um vento em rajadas. Zumbia em menosprezo por todos nós nas cumeeiras do prédio. Vento zombeteiro como só ele. Alguns escutam as vozes de entes amigos que partiram dessa para outra qualquer na sua sibilância. Outros se entreolham como se suas consciências falassem e seus pecados borbulhassem na alma que ousam sempre desdenhar.
Cr & Ag
Há quem sinta o odor de enxofre e assim espalham sal grosso no exterior de suas portas e janelas e trancam-se na casa, agora refúgio. Uma vela acesa para Nossa Senhora ou para algum santo ou santa venerados. A humanidade aproxima-se do Criador sempre que o temor é maior que seu domínio ou suas forças para enfrentar a adversidade. Sem telefones ou internet, sem a fragilidade fugaz das redes ditas sociais, a criatura sabe que depende de si e dos seus num curto perímetro.
Cr & Ag
Não era dia de lavar as roupas guardadas ou colocar a roupa de cama no alambrado ou na janela como é a rotina da dona de casa rural e de antanho. Visitas? Somente em extrema e derradeira necessidade, como enfermidade ou velório. Havia quem postergasse o sexo, no entanto, outros executavam a talvez derradeira. A última será… a última! Credo em cruz ou cruz credo. Agosto, nome do mês dado pelo imperador romano César Augusto em sua homenagem, também é o mês do “cachorro louco”. A natureza prega suas peças até nos cães aumentando incidência do cio nas cadelas e tornando os machos desvairados pelos feromônios (“odor de estrógeno”), como a maioria dos machos e nas lobas da Globo, por exemplo.
Cr & Ag
Melhor ou pior se comparado com nossos dias? Tudo ao seu tempo, necessidade e evolução. O vento Norte está aí antes de nós e certamente ficará varrendo as cinzas da humanidade e espetacularmente a soberba, a ganância, a fome de poder, a necessidade de séquito e de adoradores, a cobiça material e moral e tantas irrelevâncias ardorosamente defendidas com a vida dos outros.