Negro José!
A chuva inclemente, como um mandado divino, tentava lavar o sangue derramado numa guerra insana. Insana como qualquer guerra. Essa ainda era pior. Dizimou durante mais de uma década os sonhos de irmãos numa arena sem limites geográficos nítidos a não ser os marcados pelas patas dos cavalos, pelas rodas das carroças e carretas puxadas por bois e homens, pelas furnas cavadas pelos petardos da artilharia, pelas trincheiras transformadas em covas rasas abrigando mutilados e pelas covas plantadas quando tempo havia para sepultar os mortos… O inverno invadiu o mês de dezembro afugentando o verão tal qual uma carga de cavalaria rasgando a várzea barrenta. O frio e a chuva deprimiam ainda mais um povo que contava seus mortos e aguardava em vão o retorno de algum filho sobrevivente. Numa guerra não há vencedores, todos perdem. Alguns perdem mais. Outros perdem menos. Se é que seja possível medir a dor de almas dilaceradas.
Negro José. Esse era o nome com que era chamado por quem ainda tinha uma réstia de respeito. Para muitos era somente o Negro. Um dos caminhos de acesso ou saída de Viamão passava pela localidade onde está Gravataí. Ali estava uma muralha natural, o rio e o alagadiço pantanoso de suas margens. Ali um poderoso e rico estancieiro mantinha uma balsa e negros escravos para fazer a travessia segura. E para tal cobrava – a portagem. A guerra exigiu que fossem republicanos ou imperialistas. Deviam tomar lado. A família dividiu-se e com eles esboroou-se a riqueza. Os negros libertos foram formar ombros com os lanceiros negros. E o ainda jovem José, ficou cuidando da mãe e da irmã e principalmente em manter a travessia do rio sempre aberta.
A sua força física crescia e se comparava aos esforços dos bois que tracionavam as cordas da balsa. A todos os viajantes ele servia sem exigir nenhum pagamento. Entendia no corpo e na alma a miséria que banhava a terra. Dias e noites. Invernos e verões. Ali estava ele em plantão permanente para seu sagrado ofício. Conquistou o respeito necessário de homens que viam inimigos em qualquer sombra. Transportava militares, ricos e pobres, fugitivos e pessoas de todos os confins.
Numa noite, abrigava no galpão logo na barranca do rio um grupo de combatentes farrapos, quando chegou um pelotão de imperiais comandados por um emissário do imperador que trazia propostas de paz na bagagem. Deu-lhes pouso também, abrigando-os da tormenta infernal. Foi somente com sua coragem e dignidade aliadas a um corpo privilegiado pela natureza que impediu mortes em sua casa. Mas o embate trouxe-lhe um ferimento por estocada de adaga que penetrou em seu tórax. Daí em diante sua saúde nunca mais foi a mesma. Por ter salvado o emissário real que depois se soube ser parente do imperador, recebeu uma carta do império com sua alforria e de toda a família e ainda uma gleba de terras onde vivia. E foi mantendo vivo esse importante emissário que a paz foi encaminhada e alinhavada.
Nenhum de seus irmãos retornou para casa. A mãe morreu com o coração partido pelo sofrimento. A única irmã casou-se e foi morar na fronteira com o Uruguai. Ficaram ele e a esposa e as cicatrizes da guerra. A guerra findara no papel assinado, mas continuava em muitas mentes. Continuava transportando homens e animais e livrando-os dos atoleiros movediços e mortais que continuavam a engolir os audazes e afoitos.
Negro José recebeu um presente a longo tempo ansiado – a gravidez da esposa. O pulmão ferido respirava com muito mais ardor. Os novos dias corriam céleres. Suas largas risadas se misturavam com a música dos sinos diferentes colocados nos dois extremos seguros da travessia. A alegria retornou estrepitosa. Eis que certa noite a dama de negro veio ao seu humilde lar. A amada esposa sentia dores lancinantes e logo um jorro de sangue encharcou seu leito. Montou cavalo e foi em busca desesperada do médico ou da parteira. Encontrou a parteira. A velha acudiu-lhe com a máxima presteza. Os esforços desesperados não conseguiram salvar mãe e filho. O véu da morte cobriu sua vida. Somente a fé e o trabalho o mantinham vivo na triste solidão.
Persignava-se como sua mãe lhe havia ensinado desde criança e como sua esposa querida sempre fazia antes do sono. A tristeza reabriu a ferida de seu pulmão. Um sangue escuro tingia o seu escarro. Acessos de tosse cortavam suas noites e destruíam o descanso. Persistia em seu ofício a qualquer hora e em qualquer clima. A vida lhe fugia lentamente. A tuberculose corroia seu corpo e os músculos antes poderosos eram tragados pela moléstia. Definhava. Em curtos sonhos encontrava seus amores sepultos.
Negro José terminara uma oração ajoelhado perante um antigo crucifixo de madeira e bronze. Era noite de natal. No povoado próximo as casas tentavam se iluminar e as pessoas dirigiam-se à igreja para a Missa do Galo guiados pelos badalos da torre cristã. Havia chovido torrencialmente nas duas últimas semanas. Um vento frio extemporâneo cortava as faces e mãos descobertas. Ali estava ele em sua tarimba coberto com uns pelegos velhos. Batem à porta. Toc, toc, toc. Três pancadas leves e uma pausa. Novamente três pancadas e nova pausa. Seus ouvidos jamais pregaram peças confundindo o chamado de pessoas com o açoite do vento ou o rumor das folhagens. Levantou-se. Abriu a porta. Ali estava um menino de cerca de cinco a sete anos de idade. Pele alva. Cabelos negros encaracolados. Olhos claros, quase azuis. Andrajoso. O menino falou-lhe:
— Negro José, preciso passar para o outro lado.
Negro José sentia que a sua voz trazia algum tipo de sentimento ou mensagem que sua mente não conseguiu traduzir. Mas essa também nunca foi sua preocupação principal, precisava executar o seu ofício. A noite em breu só permitia escutar os ruídos dos sinos e da correnteza do rio alimentado pela chuvarada. Colocou o menino na canoa que usava para o transporte de pessoas isoladas e cabresteada por uma longa corda que ele tracionava com a força de seu corpo. O menino segurando o candeeiro que iluminava seu rosto sereno. Negro José fazia uma força descomunal para avançar cada metro de rio. Nem a balsa pesava tanto. Perguntava-se se seria a fraqueza da tísica ou da correnteza do rio. Jamais havia forcejado tanto.
As mãos calejadas de uma vida dedicada ao rio começaram a sangrar. Dores atrozes desciam pelos braços escorridos do seu sangue. Olhava o menino e dizia para si mesmo:
– Tenho que vencer, a vida dele depende de mim.
A tosse turvava-lhe mais a visão. Conseguiu chegar à outra margem. O alagamento no sarandizal ainda fazia restar mais uns dois quilômetros à segurança fora do pantanal traiçoeiro. Extenuado. Ofegante e sangrando. Teria que fazer o resto do caminho até o sino a pé. Paroxismos musculares jogaram sua face na lama. Levantou-se buscando energias derradeiras e colocando o menino abraçado às suas costas reiniciou a jornada. O céu abriu-se e uma estrela cintilante e solitária surgiu como a marcar o local do som do sino. Cada passo fazia suas pernas penetrarem mais fundo na água e na lama pegajosa. A criança às suas costas parecia pesar toneladas. O sino continuava a chamá-lo. A estrela limpava sua retina e buscava algum equilíbrio num velho bastão de angico. O sangue escorria das mãos do negro tingindo o bastão de rubro. Eis que um tapete prateado formado pela luz da estrela solitária abriu-se a sua frente na derradeira subida. O peso desapareceu. O menino pesava agora como qualquer outro menino. A luz iluminava pessoas que agrupadas esperavam a sua chegada.
– Quem seriam elas? – perguntava-se. Estranhamente não sentia mais qualquer dor. A estrela pareceu descer do céu.
Negro José escutou a voz do menino: – Negro José, vais conhecer o meu Pai e a minha Mãe.
— Eis meu Pai! Eis minha Mãe! – disse-lhe novamente o menino.
Negro José viu um senhor de longa barba branca e uma senhora muito bela envolta num manto prateado e logo vindo por detrás deles, com os braços abertos para abraçá-lo seus irmãos, sua mãe e sua amada esposa com seu filho nos braços.
Dia seguinte, Negro José foi encontrado morto com o velho crucifixo de madeira e bronze enrolado nas mãos ensangüentadas com dedos entrelaçados em posição de oração. Uma infinidade de pássaros o rodeava na terra e no céu. Um sarandi abriu-se em flores brancas e perfumadas. O local passou a ser conhecido como Passo dos Negros e o povoado como Aldeia dos Anjos, hoje Gravataí. E sempre que alguém necessita de uma travessia segura e faz uma prece aos céus, a mão forte de um negro surge para conduzi-lo.