Entre San Juan e Mendoza – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 16 Setembro 2014

2014 – 09 – 16 SETEMBRO – “Entre San Juan e Mendoza” – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Entre San Juan e Mendoza

 

S

into-me um privilegiado por muitas coisas, mas especialmente por desfrutar de tempo para conviver com meus netos. São três. Dois residem em Roraima. E o Lucas está aqui residindo no apartamento ao lado. Estamos na transição do encantamento pela tecnologia que mistura deslumbramento pelas suas infinitas possibilidades como pelo sufocamento da imersão em bytes e redes sociais. Assim as pessoas pouco conversam dentro e fora dos lares. Até as necessidades profissionais sucedem-se em reuniões virtuais. Grandes telas iluminadas pelos cômodos das casas e nas paredes de restaurantes, bares ou qualquer local de convivência captam e mesmerizam a atenção. Pais que se “aliviam” de conviver com os filhos permitem o uso e abuso dos jogos eletrônicos enquanto escapam da aspereza diária da vida e dos relacionamentos e transferem para alguma hora ou dia incerto as suas responsabilidades e deveres inalienáveis da paternidade.

 

Cr & Ag

 

O cronista ao ser lido e digerido intelectualmente pelos leitores permite-se ingressar nas suas “linhas do tempo”, aproveitando o gancho do “face”. A leitura extensiva até de escassa quilometragem como uma singela crônica é raramente efetuada. Testes revelam que os assíduos frequentadores das redes deliciam-se mais por imagens ou curtíssimas frases – muitas simplórias – do que pelo esforço humano da leitura seguida de raciocínio, discussão interna e externa e do entendimento. Felizmente muitos de nós carregamos nos “discos rígidos” ou nos escaninhos do amor transmitido principalmente pelos pais e irmãos as frases, estórias, relatos diversos, contos, episódios, experiências e uma infinidade de recordações conscientes e inconscientes que perfazem e constituem aquilo que somos ou que deixamos de ser.

 

Cr & Ag

 

A frase título “entre San Juan e Mendoza” era usada pelo meu pai Aldo para significar a indecisão. A hesitação em optar entre alguma coisa. Eu construí uma estória em que imaginava um padre que cuidava dos seus fieis em duas cidades, San Juan e Mendoza. Uma cidade torcia pelo Grêmio e outra para o Internacional. Rivais. Não se afinavam. E o padre ali como algodão entre cristais. Eis que o padre resolveu fazer uma capela, uma igreja exatamente no meio do caminho, assim obrigando a que todos viessem aos cultos e cerimônias, misturando-se. Logo deixariam parcialmente a rivalidade, pois os vínculos afetivos iriam se intrometer e acalmar a fúria e o ódio separatório. E gremistas e colorados casariam entre si e seus filhos…

 

Cr & Ag

 

Está se lambendo e espumando nos cantos da boca, sossegue um pouco.  Não enveredarei pela disputa eleitoral e o San Juan e Mendoza de cada eleitor do Brasil espoliado por mentirosos de plantão e gatunos… A construção dessas personalidades familiares e sociais, que somos direta ou indiretamente responsáveis, trilha o caminho que a humanidade perfaz desde tempos imemoriais. Inclusive antes das cavernas onde os sons guturais já tinham um significado e uma intenção. Trazemos cargas genéticas e espirituais que vêm para serem buriladas, aperfeiçoadas, iluminadas. Responsabilidade. Tarefa vital. Chamemos ou interpretemos com palavras, gestos, atitudes e finalmente a pergunta: – que pessoas deixaremos para a humanidade e para o planeta? Estendendo: – que mundo deixaremos para os nossos descendentes?

 

 

 

 

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