2014 – 09 – 30 Setembro – Na responsabilidade de educar – Amor e Dor! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas
Na responsabilidade de educar – Amor e Dor!
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precio muito conversar com pessoas anônimas, com gente do povo, sem os cuidados de estarem conversando com um médico e menos ser uma conversa dirigida como consulta. Assim tenho feito por toda a existência. Estando em outras cidades, com as pessoas do ponto do ônibus ou do metrô e com os taxistas e outros motoristas profissionais. Esses são criaturas excepcionais para termos uma visão do local, da região e de sua gente. Já cozinhamos vários temas desses personagens em outras crônicas. Outro dia, em deslocamento de hotel para aeroporto com um motorista já idoso, falávamos um pouco de tudo – futebol, política, prédios pichados, congestionamentos de trânsito – quando ele veio com o tema da educação dos filhos e alusão à “lei da palmada”. Contou que foi caminhoneiro e viajou por todo o Brasil. Tiveram dois filhos, ele e a esposa. Enquanto falava, olhava-me pelo espelho retrovisor interno como se não bastassem as minhas respostas e considerações e precisa-se ver meu rosto. Isso também me oferecia uma visão, um panorama e detalhes da vida repartida naquele breve caminho.
Cr & Ag
Contava-me que um dos filhos fora tranquilo e maduro para sua idade, enquanto o outro forçava caminhos sombrios, com maus e péssimos amigos e companhias. Horas de conversas, orientações, exemplos da família e de outras pessoas e fazia por estender as paradas em casa para que o rapaz mudasse de trajetória. Nada parecia funcionar. Um dos amigos preferenciais do jovem era viciado em drogas e sabidamente ladrão. No retorno de uma das suas viagens, encostou o caminhão com um mau pressentimento e uma angústia no peito. Logo perguntou pelos filhos. Um estava em casa lendo ou estudando e o outro estava sumido. Saiu em desespero a procurá-lo. Encontrou-o com o mau amigo e haviam roubado dois cavalos.
Cr & Ag
Fez devolver os cavalos e levou-o para casa. Ali chegando, retirou a cinta da cintura e passou a sová-lo. Contando a surra, vi seus olhos marejarem de lágrimas e a face contorcida de dor. – Ele gritava que iria embora de casa. Disse-lhe que poderia ir, mas que não voltasse nunca mais, pois se não quisesse estudar e trabalhar como o irmão e toda a família, que só lhe servia conviver com viciados e ladrões, que ele não impedia. O rapaz foi para seu quarto e ele disse trancar-se no banheiro e chorar como nunca na sua vida. O tempo que se seguiu foi de muito sofrimento para todos. Num pequeno complemento, disse-lhe que dói muito mais em nós do que nos filhos qualquer puxão de orelha, mais ainda uma surra.
Cr & Ag
O rapaz continuou em casa. Começou a estudar com mais dedicação e pediu um trabalho. Ele conseguiu um serviço na empresa de um amigo com o detalhe de que ele pagava o salário, mas que o jovem nunca soubesse. Que achasse ser como qualquer dos outros empregados apesar de ser menor de idade. Conta com alegria que gostaria que os filhos seguissem outras profissões, mas que os dois eram caminhoneiros como ele foi. São homens de respeito, trabalhadores e bem quistos, bons esposos e melhores pais. Disse que o filho antes problemático conta para todos que a sova que o pai lhe deu lhe o trouxe à razão e tirou-o de uma vida que já estaria morto na droga e no crime se nela continuasse. Demonstrando para todos o reconhecimento ao pai. Fez uma analogia final: – certas porcas rodam com facilidade no parafuso, mas outras têm que lubrificar muito e usar várias ferramentas para dar o aperto certo.
Vivemos uma era muito ruim para nosso povo e nossa pátria. Os exemplos são escassos nos líderes e nas autoridades. A impunidade grassa virulentamente. A lei é de levar vantagem e não ter limites ou fronteiras. A mentira é institucional. Ser honesto é um “defeito” quando tantos são criminosos de todos os naipes e cores.