Auguste de Saint-Hilaire II – Vitor Ortiz e colaboradores Eliani Vieira e Xico

AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE II

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O francês conhece os rigores

do Minuano na chegada a Viamão

Depois de percorrer o litoral entre Torres e Tramandaí, onde pernoitou, o viajante chega a Lagoa dos Barros, entre Osório e Santo Antônio da Patrulha, sem identificar exatamente em qual estância pernoita. Ele escreve sobre os butiazeiros, as pastagens, as pessoas e se deslumbra com a “bela vista”.

Ao deixar Tramandaí no dia 13 de junho de 1820, o botânico francês Auguste Saint-Hilaire estava impressionado com os rigores do vento minuano, que já era assim denominado à época, uma referência à tribo indígena predominante no Uruguai e sul do Rio Grande do Sul: “ontem à tarde o vento diminuiu por alguns instantes, tendo recomeçado com grande intensidade para durar toda a noite, e todo o dia, acompanhado de frio excessivo”. Ele vinha descendo pelo litoral desde o dia 5, quando atravessou o Mampituba e chegou a Torres, depois a Tramandaí.

Saint-Hilaire descreve a paisagem que encontra ao adentrar em direção a Viamão: “nos deparamos com uma planície muito uniforme e coberta de uma relva rasa, onde pastavam muitos bovinos. Ali notavam-se também alguns grupos de árvores raquíticas, esparsos”. Por certo ele estava se referindo à região entre o litoral, Osório e o rio Capivari, embora ele não chegue a referir esse rio, o que dá a entender que teria percorrido um caminho mais próximo da Serra do Mar. “O lago e a serra, que avistamos de longe, quebram um pouco a monotonia,” anotou (p.36), complementando: “pouco a pouco os grupos de matos tornam-se mais numerosos e a erva mais espessa”.

Ele registra em seu diário que tais campos, e os que vem atravessando “desde Torres, têm o nome de Campos de Viamão, devido à proximidade da paróquia de mesmo nome" (p.38). Nessa época, em geral, ainda era comum chamarem de Campos de Viamão toda essa região leste do Rio Grande, incluindo Porto Alegre, Gravataí e inclusive o Vale dos Sinos, até Triunfo e a divisa com Rio Pardo. A denominação é a mais antiga para toda a área Norte da Lagoa dos Patos. Para que se possa ter uma idéia, os lagunenses que vieram na tropa de João de Magalhães chegaram a essa região em 1725, quase cem anos antes dessa passagem do botânico.

No dia 15 de junho, o francês se aproxima dos limites atuais do território de Viamão, mas ainda está numa estância que não denomina em seu relato. Saint-Hilaire apenas descreve o que encontra: “uma casinha mal construída, de pau a pique e barro, mas coberta de telhas. Ao redor viam-se várias carroças; aos lados, laranjeiras, currais e algumas casas de negros”. Ali passou a noite. No dia seguinte (16 de junho), ele já está noutra estância, que pelo título do capítulo anotado por Saint-Hilaire, deduzimos chamar-se “Pitangueiras”. Ele anota que, ao conversar com seu hospedeiro, esse explica que a cultura dominante nas cercanias é a mandioca e que a terra é lavrada a arado e semeada a mão.

Depois de ensinar alguns homens que encontrou nesta estância a jogar dominó, ele os descreve: “eram todos brancos e tinham mais ou menos a aparência e os modos dos nossos (franceses) burgueses do campo. Todos traziam calça de algodão ou de lã, botas, esporas de prata, uma jaqueta também de lã e por cima um poncho" (p.38).

Ele registra seu deslumbramento com a paisagem que avista desse ponto:

– Nada é tão belo como os campos hoje percorridos. Os de Curitiba são ondulados e os grupos de araucárias que se vêem nos fundos tornam a paisagem um pouco austera. Aqui o terreno é mais uniforme (…) com pastagens a perder de vista. Todavia nada há de monótono no aspecto desse campo, animado que é por uma multidão de animais de criação, eqüinos e bovinos. Descreve ele, acrescentando que na volta estão moitas de matos e que, de tempos em tempos, no percurso, se notam trechos do lago que os persegue desde de Itapeva. Ele imagina que as muitas lagoas da costa são uma só. Depois foi descobrir que esta última que avistava era a Lagoa dos Barros.

BUTIÁS

Deixando para trás o que agora chama de “Fazenda do Arroio”, o francês registra uma travessia por um “campo semeado de butiás, onde o terreno mostra uma mistura de areia e humus quase preto”. Ele constata que a presença dos butiás coincide com a de outras plantas: “…a Rosácea, a Labíada e a Verbenácea”, por exemplo, não encontradas onde não há butiazeiros. “Onde deixei de encontrar butiás, a terra apresentou-se menos silicosa e os pastos eram principalmente de gramíneas, dispostas em tufos espessos.” Na forma do famoso cocuruto que traí os goleiros nos campos da várzea.

CONTEXTO DA ÉPOCA

Em 1820, Dom João VI ainda está no Rio de Janeiro, cidade declarada por ele como sede do novo Reino de Portugal, Brasil e Algarves, mas estoura em Portugal a Revolução do Porto, que exige o seu retorno. As cortes, uma assembléia do reino que há 120 anos não era convocada, foi chamada para deliberar sobre uma nova constituição. Na prática, a nobreza e as elites portuguesas estavam conspirando para levar de volta a Portugal o centro do reinado, trazido para o Rio de Janeiro com a fuga da família real em 1808. Ao mesmo tempo, “com quase meio século de atraso, Brasil e Portugal eram finalmente capturados pelos ventos soprados nos Estados Unidos (com a independência), em 1776, e na França (com a Revolução Francesa) em 1789,” conforme classifica Laurentino Gomes no livro 1822 – Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado (p. 86). Ventos estes que colocaram os reis do mundo ocidental em xeque, e alguns em xeque-mate.

DEPOIS DA FUGA, A RECONCILIAÇÃO COM A FRANÇA

Neste ano em que Saint-Hilaire está no Brasil, a França está sob o regime de uma monarquia constitucional, com o trono restaurado a Luís XVI depois da derrota de Napoleão. Dom João, que havia deixado Portugal justamente fugindo de Bonaparte, agora tem muito interesse em melhorar e renovar sua relação com Paris. Essa é uma das razões de ter dado permissão a viagem expedicionária do botânico que nesse momento cruza os Campos de Viamão.

Notas:

*Fonte: SAINT-HILAIRE, Auguste de, Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821). Companhia Editora Nacional. Tradução do original (1839) de Leonam de Azeredo Pena. São Paulo, 1939 (2a. edição). Consulta em Brasiliana Eletrônica (www.brasiliana.com.br).

*Apoio na pesquisa: Eliani Vieira

*Ilustração: Xico

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