2014 – 10 – 14 OUTUBRO – Parábolas ou Causos – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Parábolas ou Causos
Cenário 1. Uma multidão de pessoas estava à beira de um rio traiçoeiro. Precisavam cruzá-lo de qualquer maneira. Poucos barcos e a maioria em mau estado. A elite governante atravessou embarcada numa bela lancha com incontáveis mordomias a bordo. Aos demais distribuíram latinhas para retirarem a água das canoas enquanto atravessavam remando. Alguém disse: – a estrada é ruim, mas tem uma ponte bem lá em baixo. A turma se dividiu, muitos embarcaram nas canoas sabidamente furadas e os demais foram pela estradinha buscar a ponte. A elite governante atravessou em festa o furioso rio. A maioria das canoas furadas naufragou pois os ocupantes não deram conta de esvaziar a água que teimava em entrar. O pessoal da suposta ponte passou trabalho na estrada mal cuidada pela elite governante, mas encontrou o pontilhão e atravessou o rio.
Cr & Ag
Cenário 2. O novato adentrou os portais do inferno e logo nos primeiros salões encontrou multidões mergulhadas em enormes piscinas de estrume. Mais fétido e cheio de moscas e vermes que você possa imaginar. O novato via aquele pessoal pedir que ninguém se mexesse pois as marolas de estrume logo lhes tapava a cabeça e entrava pela boca e narinas, mesmo estando nas pontas dos pés. Volta e meia alguém sussurrava: – Olha a onda! – e lá vinha mais estrume. Angustiado com a situação o novato perguntou-lhes porque não saiam dali e procuravam outro lugar. A resposta era sempre a mesma: – Neste estamos e conhecemos a merda há mais de uma década e vai que no outro é pior que aqui! – e ficaram ali. Logo nos pavilhões a frente o pessoal fazia bailes funk, bebia uísque 25 anos, comida rolava, mulheres cinco estrelas e tudo de bom, gostoso e luxúria total. E ali o novato ficou para ser seduzido e torturado.
Cenário 3. Três amigos viamonenses nos tempos de antanho foram caçar perdizes, cerca de um dia de viagem de Viamão – ou do Capelão. Nas carroças estavam as criaturas, seus cães perdigueiros e o resto da tralha. Um dos amigos tinha fobia. Pior ainda, terror mórbido por cobras. No anoitecer estava um deles defecando escorado num tronco de figueira quando passou-lhe perto uma enorme e roliça cobra preta. Certamente fugindo do cheiro dele. Mais depressa que um corisco, deu uma paulada na cabeça da cobra matando-a. Enquanto terminava a obra sua mente tecia um golpe no medroso amigo. Combinou com o outro. Após a janta e uma conversa apagaram os candeeiros e foram dormir. Esperaram que o medroso começasse a ressonar e deram-lhe uma garfada no pé após deitarem a cobra enrolada aos pés da cama. O medroso acordou-se num griteiro e acenderam um fósforo e viu-se a enorme cobra preta que logo foi triturada e amassada a pauladas pelos “fieis” amigos. Tomado pelo pânico de ter sido picado queria voltar, mas os cavalos estavam soltos no campo. Era choro e ranger de dentaduras e pivôs. Eis que um dos amigos falou que sabia de um antigo remédio que seu avô tomara em semelhante situação. O medroso exigiu que contasse apesar da sua negativa. Seria um chá com verdes e estrume de cachorro. Novamente chorando e com dor já paralisando a perna e outras partes do corpo, exigiu o chá com cocô de cachorro. E como a coisa custasse a ficar ponta na fervura, pegou algumas fezes mais endurecidas e começou a mastigas e comer “para adiantar o efeito”. Ao saber pelos amigos da onça da maldita brincadeira, quase deu morte na caçada e as famílias ficaram inimigas pelo resto dos tempos.
Cr & Ag
Deus escreve certo pelas linhas tortas que a humanidade traça. A leitura e os ensinamentos dos fatos e episódios da vida são da capacidade de cada criatura. Uma certeza – nem sempre os laureis acadêmicos e os títulos fazem as pessoas mais aptas ou mais nobres. Outra certeza – os vermes habitam e regozijam-se no lixo e nos restos da dor e do sofrimento de suas vítimas.