Viamão – Histórias de sua História – Vitor Ortiz e colaboradores: Eliani Vieira e Xico.

Caríssimo Dr. Edson,

Segue o primeiro artigo que, já revisado para outras publicações. Disponibilizo para o seu blog.

Se julgares melhor ir publicando aos poucos, vou enviando os demais à medida em que conseguir revisá-los. Talvez na freqüência de um por semana (não sei se isso é bom pra vc).

Este primeiro revisei agorinha mesmo pra te enviar.

Por favor de os créditos para

PESQUISA: Eliani Vieira e ILUSTRAÇÕES: Xico

Me confirme o recebimento.

Grato

Vítor Ortiz

(51) 9603.8565

 

DA SÉRIE

Viamão – Histórias de sua História

 

Autor: Vítor Ortizclip_image002AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE I

 

O botânico francês

que descreveu Viamão de 1820

 

Para ter uma idéia do que havia em Viamão no início do século XIX, época de Dom João VI e Dom Pedro I, vamos visitar a descrição dos então chamados Campos de Viamão narrada pelo expedicionário Auguste de Saint-Hilaire que percorreu o caminho entre Torres, Osório, Tramandaí, Viamão e Porto Alegre há cerca de 200 anos.

 

Uma das delícias do fazer do historiador é a descoberta do passado aparentemente inacessível, o que ocasionalmente é possível, inclusive em detalhes, quando as lentes documentais permitem que o nosso olhar ultrapasse as barreiras cronológicas, como na clássica viagem pelo Túnel do Tempo (seriado que fez grande sucesso na televisão nos anos 70). O túnel do historiador é composto de suas fontes documentais e a sorte é grande quando, para investigar o passado, encontra-se um relato sobre a época que está sendo estudada, produzido por alguém que lá esteve em data remota.

 

É essa uma das riquezas dos registros que o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire fez na obra Viagem ao Rio Grande do Sul, publicada em 1939, na França, parte de todas as anotações deixadas por ele sobre sua longa viagem de seis anos pelo Brasil, onde percorreu desde os sertões nordestinos até o pampa, no extremo sul, incluindo a então Província Cisplatina (Uruguai), entre 1816 e 1822. Para a história de Viamão, os registros de Saint-Hilaire são como a carta de Pero Vaz de Caminha para o Brasil ou, com os devidos descontos, a Odisséia para a história da Grécia clássica. Ou seja, o mais importante, e também antigo, relato escrito sobre o lugar.

 

Durante o século XIX, especialmente os franceses realizaram diversas expedições científicas e artísticas nas américas, continente que, para a Europa, ainda era um mundo novo e pouco conhecido. Saint-Hilaire desembarcou no porto do Rio de Janeiro em 1816, no mesmo ano da Missão Francesa liderada por Joaquin Lebreton (um dos estruturadores do Museu do Louvre na era napoleônica), que por sua vez trouxe consigo diversos artistas renomados na Europa para pintar o Brasil e fundar aqui uma academia de artes e ofícios, a primeira do país, nos moldes de uma universidade, a exemplo da Academie Royale, de Paris. Na órbita de ambos, de Saint-Hilaire e de Lebreton esteve a intermediação direta ou indireta do grande expedicionário alemão Alexandre Humboldt, que auxiliou tanto a um como a outro, intermediando as relações com a corte portuguesa no Brasil para que as iniciativas fossem autorizadas. Humboldt havia realizado uma extraordinária expedição exploratória de pesquisa pela América entre 1799 e 1804, cujos relatos foram sintetizados no memorável livro Viagens intermináveis pela América do Sul, tornando-se um dos europeus mais famosos da época, atuando inclusive como embaixador e como mecenas de importantes artistas..

 

O PAI DO FRIO

Na última etapa de suas viagens pelo Brasil, Auguste Saint-Hilaire percorreu o Rio Grande do Sul e o atual território do Uruguai descrevendo o dia-a-dia da viagem, os detalhes da paisagem, o clima, a gente que encontrou, alguns hábitos como o mate, a vegetação, a economia do gado, as plantações, os povoados e a arquitetura. O marco de sua viagem para este trabalho é sua passagem por Viamão e a descrição pormenorizada que fez das estâncias, da paisagem e inclusive da Igreja Nossa Senhora da Conceição.

 

No dia 05 de junho de 1820, a expedição de Saint-Hilaire ultrapassa o rio Mampituba (que ele anota e explica significar na língua indígena “Pai do Frio”), antigo limite a sul do território português nas américas, entrando na “Capitania do Rio Grande”. Uma légua depois, avista Torres, “chegando aos montes que têm esse nome”. Ele conta que, nessa época, haviam iniciado ali a construção de uma igreja (a de São Domingos, inaugurada em 1824) a partir da idéia de ai instalarem uma paróquia, o que equivalia a criação de um município. Para acessar ao serviço religioso, os moradores de lá tinham que percorrer nessa época cerca de 100km até a paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Arroio (atual município de Osório).

 

Ele narra o que percebeu na paisagem dizendo de início que, “de Laguna até aqui (Torres), a costa é muito baixa e muito castigada pela fúria de um mar perigoso para as pequenas embarcações…”. Conta ainda que estavam construindo nesse lugar também um forte, onde trabalhavam 30 prisioneiros da batalha de Taquarembó (dos quais 29 eram índios). Tal batalha, ocorrida naquela época, segundo anotações do próprio botânico, teria resultado na morte de cerca de 500 homens do exército de Artigas e outros 400 presos pelos portugueses. Referindo-se aos índios, Saint-Hilaire diz que a maior parte do grupo mostra traços de sangue espanhol:

 

       Uns vieram das Missões, outros de Entre-Rios e outros do Paraguai. São baixos, têm o peito de largura exagerada, os cabelos negros e lisos, o pescoço curto… Descreveu-os.

 

LAGOA DO INÁCIO

Seguindo viagem em direção ao Sul, Saint-Hilaire chegou a um “grande lago”, segundo sua descrição, “que chamam de Lagoa do Inácio”. Ele constata que as culturas de plantio no sitio que se localiza na margem oposta é principalmente de subsistência – o milho, a mandioca e o feijão – tendo também o proprietário do sítio uma grande plantação de cana para a produção de água ardente. Afirma ainda ter visto algodoeeiros ao redor das choupanas onde pernoitou.

 

TRAMANDAÍ

No dia 11 de junho ele chega a Tramandaí, cujo nome advém do rio (na verdade um braço que liga uma das lagoas do litoral ao mar) que desemboca no oceano nessa altura do trajeto da viagem. “O terreno é o mesmo de sempre, arenoso e chato, apresentando pastagens semeadas de moitas e cobertas de uma erva espessa e amarelada. Vemos intermitentes trechos do lago, mas depois do Sítio do Inácio as montanhas (da Serra do Mar) se distanciam e tomam a direção sudoeste.”

 

Novamente ele encontra índios aprisionados sendo escoltados em direção a Torres. E observa que, “depois da saída dos jesuítas, os índios das Missões ficaram entregues aos soldados e homens corrompidos, vivendo atualmente da pilhagem, no meio das desordens da guerra, não sendo de admirar que suas mulheres não mais conheçam o pudor” (p. 32).

 

Notas:

1- A Missão Francesa chegou ao Rio em março de 1816 e resultou na criação da Academia Real de Belas Artes no Rio de Janeiro. Fizeram parte do grupo trazido para o Brasil alguns expoentes das artes e ofícios, como o pintor neoclássico Jean-Baptiste Debret, Auguste-Henri-Victor Grandjean de Montigny (arquiteto), Auguste Marie Taunay (escultor), Charles Simon Pradier (gravador), os irmãos Marc e Zepherin Ferrez (escultor e gravador), entre outros mestres de ofício. Sua chegada está relacionada a presença da família real e à transferência da corte para o Brasil em 1808, o que trouxe também a necessidade de estruturação da ex-colônia, copiando o modelo europeu.

 

2- Baseado na obra Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821), segunda edição da tradução de Leonam de Azevedo Pena, Companhia Editora Nacional (1939), disponível no acervo digital da Brasiliana (www.brasiliana.com.br).

 

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