O Coronel Chimango II–por Vitor Ortiz – Novembro 2014

 

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O CORONEL CHIMANGO II

 

Numa emboscada, o pai de Acrysio

é assassinado no Passo das Canoas

 

UMA DAS MARCAS DA SOCIEDADE GAÚCHA DO FINAL DO SÉCULO XIX É A VIOLÊNCIA. PREDOMINAVA UMA CULTURA NA QUAL ANDAR ARMADO, EM CASA, NO CAMPO, NO BOLICHO OU NA CIDADE ERA NORMAL. MATAR PODIA SER TÃO NATURAL COMO MORRER. TERRA E PODER ERAM OBJETOS DE DISPUTA COTIDIANA. O ANO DO INCIDENTE QUE VITIMOU MANOEL MARTINS PRATES FOI 1876, OITO DEPOIS DE FINDADA A GUERRA DO PARAGUAI E 17 ANOS ANTES DE ESTOURAR A REVOLUÇÃO FEDERALISTA. OS GAÚCHOS DE ENTÃO VIVIAM DE GUERRA EM GUERRA.

 

O dia 26 de novembro de 1876 era um domingo de corridas de cavalo na cancha da Aldeia dos Anjos. Uma destas, aliás, até hoje existe logo no início da RS 020, entre a estrada antiga para Santo Antônio da Patrulha e o rio Gravataí, logo no acesso aquele município, depois da Free-Way. Esse era um dos programas prediletos dos gaúchos de então. O dia estava raiando, quando Manoel Martins de Oliveira Prates, o pai do Coronel Acrysio Prates (na época um guri de apenas 8 anos)¹, saiu a cavalo com outros gaúchos em direção ao Passo das Canoas, por onde devia seguir para encontrar a festança corriqueira, onde normalmente se varava o dia entre tragos, churrascos, jogos diversos e o famoso pastel de carreira.

 

No grupo, seguiam vários amigos, entre estes o irmão de Manoel, Firmino Prates, Manoel Baptista, Idalino Fernandes, Antônio José da Silva, Argemiro Antunes Morem e seu irmão Theodoro. Este último, então com 45 anos, lavrador, declarou em depoimento posterior, no inquérito sobre o ocorrido, que viu quando foi disparada uma carga de tiros sobre os homens que seguiam um pouco a frente do ponto onde estava, resultando na morte de Manoel Martins Prates. Segundo Theodoro, numa reação instintiva, os homens que seguiam juntos a cavalo, ainda atiraram para os lados, mas não acertaram ninguém.

 

Aparentemente, a emboscada tinha sido uma encomenda e os matadores sumiram nos matos. No entanto, as suspeitas recaíram sobre um sujeito chamado Sesisnando e seu grupo. Esta figura era vista por pessoas consideradas importantes na época – como o Coronel Firmino Ramires de Souza Feijó (da família proprietária do Passo do Feijó, atual Alvorada) e pelo Capitão José da Rocha Vieira – como um matador de aluguel. Eles eram testemunhas de que, na data das eleições anteriormente ocorridas, Sesisnando havia provocado os irmãos Manoel e Firmino na Igreja de Viamão.

 

De acordo com o que testemunhou Theodoro, Manoel e seu irmão Firmino já haviam revelado temer uma emboscada, em particular dos Barcellos, com quem tinham uma inimizade antiga, “animosidade que aumentou quando Diogo Ignácio de Barcellos deu dinheiro para um escravo de Firmino Prates comprar a sua liberdade”².

 

O réu Diogo, por sua vez, pediu a palavra na audiência que se desenrolava dias depois, em 20 de dezembro do mesmo ano, na Casa da Câmara Municipal de Porto Alegre, em cerimônia dirigida pelo juiz substituto em exercício Estácio da Cunha Bitencourt. Segundo o réu, a inimizade com os irmãos Prates já existia entre 13 e 14 anos, mas em nenhum momento os Barcellos atentaram contra a vida deles e que o caso do escravo tinha acontecido há mais de dois anos. Conforme alegou, Manoel Prates tinha muitos outros inimigos, assim como seu irmão Firmino.

 

ANIMOSIDADE NAS ELEIÇÕES

Também testemunharam neste mesmo processo Wenceslau José de Freitas Guimarães, João Antônio da Silva, Manuel Boeira e Francisco de Paula Machado. Porém calou mais forte o depoimento de Mariana Henriqueta que afirmou ter ouvido dos acusados, em particular de Sesisnando e seus companheiros, que pretendiam matar os Prates. Na turma de Sesisnando estavam Zeferino José Alves, Cesário Francisco José Estácio e ainda o preto Antônio, que haviam ficado por três dias na residência de Henriqueta por ocasião das últimas eleições, então recentemente havidas, quando o principal suspeito andava junto de Tristão José de Fraga (que foi depois o primeiro intendente de Viamão do período republicano), conforme testemunho de Wenceslau. Segundo esse outro depoente, Sesisnando era um assassino que se gabava abertamente de já ter matado outras pessoas.

 

No final do processo, os únicos que foram acusados e compareceram à audiência foram os irmãos Zeferino e José Alves. Sesisnando e o petro Antônio não apareceram no julgamento e é provável que tenham fugido, aumentando as suspeitas sobre sua culpa.

 

Segundo Adonis³, Manoel nasceu em 29 de maio de 1829, próximo ao local onde morreu, aos 47 anos, nas imediações do Passo das Canoas. O mesmo autor registrou nos anos 1960 que até aquela data não se sabia ao certo quem havia cometido o crime.

 

OS BARCELLOS INOCENTADOS

Foram denunciados Sesisnando, Francisco Nunes, Zeferino José Alves, o preto Antônio, Polycarpo Leocádio da Conceição, José Antônio Pacheco Filho, Cezário Francisco José Estácio e um menor de 16 anos, chamado Ramires José Alves. No dia 06 de dezembro, foram expedidos mandados de prisão a todos estes réus. O processo registra que Zeferino, por exemplo, estava preso em 18 de dezembro, dois dias antes da audiência.

 

Os irmãos Barcellos, José Ignácio e Diogo, nem chegaram a ir a julgamento, embora as suspeitas de que fossem eles os mandantes. Seu advogado era outro Barcellos, o Dr. Israel Rodrigues, genro da Brigadeira Raphaela Pinto Bandeira. As circunstâncias em que essa rixa entre os Prates e os Barcellos apareceu, anos antes da emboscada, e os motivos, não ficaram esclarecidos no processo. A esposa de Manoel, mãe de Acrysio, Dona Liduína, nascida em 02 de outubro de 1844, era filha Cândido Pinheiro de Barcellos e Fausta Cândida de Moraes, mas nos registros* não aparece o nome dos avós, o que deixa dúvida sobre o fato se ela pertencia a mesma família de Diogo e José Ignácio.

 

NOTAS:

¹Na edição anterior, a coluna nos baseamos no livro de Adonis dos Santos para informar o ano de nascimento de Acrysio Prates como sendo 1877. Outra publicação, o Album Ilustrado do Partido Republicano Castilhista, de 1934, no entanto, diz que ele nasceu em 23 de março de 1868, o que é mais provável. Nesse caso, Acrysio foi intendente pela primeira vez em 1912, aos 44 anos, deixando o cargo aos 52 anos, em 1920. Faleceu em 02 de setembro de 1945, aos 77 anos.

²Processo sumário-1877, Juízo de Direito da 1a. Vara e 2° Distrito Criminal da Comarca de Porto Alegre. Arquivo Público do Estado do RS.

³DOS SANTOS, Adonis. Viamão – vultos do passado e figuras ilustres. Página 161.

*TIM, Octacílio B. e GONZALES, Eugênio (org. e edição). Álbum ilustrado do Partido Republicano Castilhista – RGS. Porto Alegre: Livraria Selbach de J. R. da Fonseca e Cia, 1934.

*Registro de Liduína, vó de Acrysio em http://www.familysearch.org

*Pesquisa: Eliani Vieira

*Ilustração: XICO

*Colaborou: Silvio Terra de Oliveira

 

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