2015 – 03 – 24 Março – Lembranças que trago comigo – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
“As lembranças que eu trago comigo”
Pescando essa frase de uma música da minha juventude encaixo outra frase: “esqueci de esquecer”. A máxima do pensamento positivo é não olhar para trás. Esquecer-se do espelho retrovisor da vida nos afasta de experiências boas ou ruins que de alguma forma nos ensinaram e nos moldaram a ferro e fogo ao que somos ou ao que restamos agora. No agora da vida de você e na minha. De qualquer ou de todos nós. Dizem-nos que nos estertores finais da existência, naquele momento em que as dores do corpo se afastam, naquele momento em que começamos a vislumbrar através da cortina que separa os mundos visíveis e invisíveis, é ali naquele momento em que a vida passa por nós aos nossos olhos da alma numa sequência que se esgota com o derradeiro suspiro. Aproveitemos então para ver e rever nossas existências em outros momentos além daquele onde não há retorno ou desvios, nem correções de rota.
Cr & Ag
Voltaremos como entramos nessa existência – despidos de tudo e numa lufada do hálito divino. Estaremos absolutamente despidos das pompas e da grandiosidade de títulos de nobreza ou da realeza universitária. Nada trouxemos e nada levaremos além das vivências de nosso espírito e dos entendimentos a que viemos buscar e devem estar no alforje eterno revestido de ódio ou de amor. Essa é a única certeza que carregamos ao adentrar nessa existência. Todo o poder que tantos buscam e acumulam e que se espalha na riqueza espoliada, na ferocidade das armas e na couraça das ideologias que ousam e insistem em impor a todos se esvanecem e na carcaça final talvez reste o silicone ou os materiais cirúrgicos de beleza questionável e finalidade abusiva.
Cr & Ag
Na minha infância viamonense acompanhava minha avó Adiles aos cuidados com as sepulturas dos familiares aqui no Cemitério Velho. Minha mãe, católica fervorosa, orava rosários para minha irmã Dilu, nascida no dia do aniversário de meu pai, e teve curtíssima existência. Eu perambulava olhando os mausoléus dos abonados e as sepulturas dos humildes na terra nua com pequena cruz e um número. Havia um local que sempre tinham velas acesas – o Buraco dos Ossos. A sepultura democrática e comunitária. Ali iam as ossadas dos abandonados pelos vivos e desprovidos até de uma prece pessoal. Quantas vezes, após vencer o temor das fantasias lúgubres, o guri sentava e orava e pensava naqueles que em vida amaram e foram amados. Sofreram e fizeram sofrer. Todos com a sua importância, com suas individualidades, suas vidas trazidas pelo sopro divino. Quanto do respeito aos mortos e à senhora morte mudou a vida do guri que se tornaria médico?
Cr & Ag
“Médico também adoece?” – dizem alguns até com sentimentos de regozijo que as enfermidades não respeitem nenhuma fronteira humana. Há quem precise da enfermidade minar seu corpo para que o poder do ego abaixe as orelhas e se humanize. Sempre acreditei que ser médico significa respeitar e tratar os pais dos outros como gostariam que tratassem os seus, os filhos dos outros como os seus, a esposa dos outros como a sua. E é quando o contrário acontece que mais se deve valorizar aos bons que tentam e peregrinam no rumo de evoluir em amor ao seu paciente. Há muito desamor no endeusamento pessoal dos diplomas e do saber corrompido e decaído ante seu poder e necessidade de mais ouro. Desconhecem que em algum lugar há um buraco dos ossos aguardando seu corpo e um pântano espiritual para sugar sua alma. E talvez tenha que repartir um Pai Nosso e uma Ave Maria com outros atolados como ele. O nosso país é a nossa casa maior da nação brasileira e o lodaçal e a idolatria acumulam riquezas materiais e poder desenfreado como a serem eternos nessa vida. Muitos receberão louros post-mortem em nome de obras públicas ou fundações, nada disso aliviará a putrefação no buraco dos ossos.