2015 – 08 – 18 Agosto – A Lágrima do Diabo! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
“A Lágrima do Diabo”!
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hocou-se com o título? Então abra sua mente e seu coração e vamos adentrar um território de alto risco para o corpo, para a mente e para a alma. Uma paciente trouxe-me sua mais extrema intimidade durante uma consulta. Sou médico de sua mãe e irmão, entre outros familiares. Agora na sua aposentadoria, depois de extensa vida na educação, de ter trilhado as dores da dependência química e dos sofrimentos amorosos, dedica-se ser cuidadora de sua mãezinha idosa. – Doutor, posso lhe contar uma coisa que nunca disse pra ninguém na minha vida e nem para o meu psiquiatra? – com os olhos buscando os meus. E continuou depois da minha concordância: – Penso em morrer. Já pensei em me matar e…! – senti o brutal sofrimento das palavras arrancadas de seu coração. O grande amigo e mestre Dr. Antonio Veiga afirma sempre: – O terapeuta deve amar seu paciente! Entendam como o amor à humanidade, ao ser humano, o amor Crístico e sem nenhuma outra conotação física ou material. Imenso conhecimento técnico é insuficiente para o melhor tratamento se não houver amor. Agora afastada das drogas, a paciente motiva-se com a atenção à mãe idosa e enferma e reparte amor com trabalho espiritual dedicado à comunidade. Na nossa concepção cristã, tirar a própria vida ou simplesmente desejar instaura um processo de dor e culpa que corrói a pessoa.
Cr & Ag
Nem sempre o terapeuta é somente o psicólogo ou psiquiatra, médico ou representante religioso, mas frequentemente busca-se conforto e apoio no cônjuge, nos filhos e familiares, nos amigos, na fé religiosa e até nos animais. Somos seres que necessitam do toque do amor. Ensinam-nos que temos anjos de guarda ou seres de luz que nos protegem e orientam. No entanto, o lado negro da força está também conosco. Onde há luz há escuridão e sombras entre elas. Somos nutridos pelo bem e assediados pelo mal. Diversas situações levam-nos para esse caminho, descaminho ou atalho fatal – desamor, ausência de horizontes, enfermidades graves ou crônicas com severo sofrimento físico e mental, velhice, mortes de pessoas amadas, solidão, etc. A multifacetada enfermidade depressiva acomete também à criança, apesar da miopia de médicos e familiares. A ciência não criou nenhum aparelho que consiga quantificar ou medir a dor mental ou espiritual. Nem a felicidade! A mesma dor e sofrimento que alguns desdenham, outros são literalmente despedaçados. A mutilação física é medida com a perda de órgãos ou membros, mas muitos acreditam ser “frescura, bobagem” ou outra explicação tosca aos quadros depressivos. A psicoterapia e os tratamentos medicamentosos são da área médica. Nosso alerta é para os demais.
Cr & Ag
Jamais o terapeuta pode ser o juiz, o júri ou o carrasco do seu paciente. Quem ama deve ter cuidado dobrado e raciocinado. “Dizer a verdade”, “o mundo é assim”, “tempestade em copo d’ água”, “tem tudo pra ser feliz”, “tem gente muito pior”, “essa mulher (ou homem) não vale tua dor” e vai por essa senda para alguém em sofrimento e muito vulnerável, muitas vezes não ajuda como até agrava. Muitas pessoas e especialmente familiares encaram a situação depressiva como aversiva ou contagiosa, uma lepra mental e afastam-se. Em vez de oferecerem o abraço, o ombro, o carinho e a proximidade amorosa distanciam-se. Quantas vezes vemos belos funerais, prantos e lamentações, o retorno dos ausentes e a sutil ignorância quando faltou amor em vida. Alertemo-nos! Atitudes e comportamentos, até inconscientes, revelam as sombras da dor interior. “Homem não chora, diz um verso e vai embora!” – tão poético quanto desprovido de verdade. Somos humanos, independente de gênero, cor, ideologia e outros portantos. “O mundo anda rápido demais” e “precisamos trabalhar” serve como atenuante? Quantas vezes não queremos enxergar aquilo que nos machuca os olhos e nos agulha os sentidos, pois nem todos ainda depois de longo esconder (como a paciente) e nem com tal veemência expressa seu desejo que a única certeza depois que nascemos seja mais breve e o suposto alívio – jamais será alívio real! – antecipado. Somos seres imperfeitos em busca de entendimento e assim iluminar nossa alma e afastar as sombras e a escuridão de nós, das pessoas que amamos e de quem estiver nessa jornada.