Corisco, Prego e Rosa! – Um Natal iluminado – Edson Olimpio Oliveira – Medalha de Ouro categoria Contos–VIII Concurso Literário FECI (Fundação Educação e Cultura do S.C. Internacional) e Casa do Poeta Latinoamericano – Outubro 2015

 

Corisco, Prego e Rosa!

– Um Natal iluminado –

Autor: Edson Olimpio Silva de Oliveira

 

L

embremos o ano da Dor e da Luz – 1954. Enquanto alguns pranteavam amigos e parentes mortos e sepultados no campo santo de Pistóia, na Itália, outros ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira – FEB persistiam sua vida aqui na primeira capital de todos os gaúchos. Nem todas as mutilações são visíveis no corpo. As lesões da mente e do espírito são mais graves. Um ano de muita dor e sofrimento, o Pai dos Pobres, Getúlio Vargas, morrera no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. O povo brasileiro abraçava-se aos prantos pelas ruas deste país. Mas a Negra Rosa continuava com sua fé inabalável na santa padroeira desta cidade, Nossa Senhora da Conceição. Uma irmã mais velha foi mãe e madrinha desses dois jovens que foram arrancados das peladas no campo da baixada rubro-negra e dos gramados no matadouro dos Pintos para servirem ao exército – Corisco e Prego.

Outro órfão criado nas adversidades da existência crescera com o amor dos religiosos no “abrigo” do Pão dos Pobres e ali aprendeu o ofício de linotipista. Adão Carlos era seu nome. Sua paixão pelo futebol e pelo seu Colorado tornava-o presença constante nos jogos e até em treinamentos e ali era incitado por amigos e jogadores e na ponta da língua recitava as formações dos times, datas de jogos e o placar. O mítico Rolo Compressor era sua maior paixão. E foi por suas mãos que tentou apresentá-los ao técnico Volante. Num desses treinamentos, Carlitos teve a camiseta rasgada numa disputa com Nena, o Parada 18. Ao final do treino, Carlitos tirou-a, beijou-a espremida entre suas mãos e a jogou para jovens que se acotovelavam junto ao alambrado e logo abraçada pelo gêmeo Prego saltando mais alto que todos. Comprimida contra seu coração era um troféu de inestimável valor. E foi com essa camiseta amorosamente costurada, como as tabelinhas de Carlitos e Villalba no Grenal em que seu Colorado ganhou de 7 a zero na casa do adversário, que Prego passeava com a glória de um herói pela velha Setembrina dos Farrapos.

Corisco era um ponteiro-direito que se inspirava no formidável Tesourinha, enquanto seu gêmeo Prego era “negrinho alto de pernas finas e joga de cabeça em pé como cobra dando o bote, é um jogador cerebral”, diziam. Corisco fazia da vida das defesas um inferno e sua velocidade e arte tripudiava dos adversários. A vida tem sempre um senão. Apesar da curta existência no recrutamento, o álcool trazido na mochila dos pracinhas afastava-o do futebol e do trabalho de pintor de residências e lançava-o nas noites sem fim das canchas de bocha e de jogo do osso. Numa dessas noitadas de álcool e jogo, recebeu a visita da dama de negro que lhe acompanhava nos delírios de sepultar e carregar os companheiros mortos na guerra – uma adaga assassina tirou-o dessa existência!

A cidade comentava a morte violenta. As lavadeiras do arroio Mendanha oravam com as mãos dadas num anel de amor todas as noites pela sua sofrida alma. Apesar dos cuidados e do carinho daquelas negras e negros escaldados pelo ancestral infortúnio de sua raça e de “algum branco misturado” o seu irmão Prego começou a definhar. Havia ido jogar no grande time do Renner onde uma fratura de perna impediu-o de ser o Campeão Gaúcho daquele ano. Logo uma tosse insidiosa assombrava o casebre da Rosa. Prego emagrecia dia a dia. Os remédios da irmã e das negras velhas e sábias não surtiam nenhuma melhora. Buscaram tratamentos na Capital e o amigo Adão Carlos acompanhava-os com frequência. Era a tísica, como chamavam a tuberculose, que lhe corroía o corpo extenuado numa tarimba com a preciosa camiseta aberta e fixada na parede a sua cabeceira, logo abaixo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Num mundo em que os fortes e poderosos serão lembrados, os fracos e pobres rumam ao esquecimento. Mais denodo Rosa trabalhava para alimentar e tratar do irmão enfermo. Nas noites delirantes e febris, a irmã amorosa colocava sua cabeça em seu colo e com panos umedecidos numa bacia com água benta passava-lhe nas frontes enquanto seus lábios oravam com fervor. A vida agonizava naquele corpo franzino e dilacerado pela perda do irmão querido.

As toalhas da Igreja centenária de Nossa Senhora da Conceição quaravam ao sol nos gramados atapetados da margem do arroio. Lavadas e engomadas por Rosa, assim como havia sido por sua mãe e avó. O padre entregava-lhe os panos e tecidos mais nobres para que iluminassem os altares e as festas da Padroeira e do Natal. Uma imagem da santa estava numa singela gruta de pedras e coroada com conchas do mar sob uma pitangueira espreitando o arroio e suas lavadeiras. Uma vela especial ardia ansiando graças divinas. Negro Prego talvez não varasse o Natal de 1954, pois golfadas de sangue faziam rubro seus panos e o leito expelidas pela tosse lancinante. A velha galena trazia-lhe o conforto relativo de algum jogo de futebol entre períodos de delírio. Os vizinhos pediam-lhe que a desligasse, pois o incêndio da Casa de Correção em Porto Alegre trazia dor e temor para todos. Somente um sorriso era sua resposta eventualmente. Alguns não entendiam. Seu coração entendia. O amigo Adão Carlos lia-lhe as reportagens dos jornais mesclando com os feitos da epopeia do seu Internacional na esperança de estimulá-lo. Aglomeravam-se crianças e alguns adultos para verem suas narrativas dos golos como o mais entusiasmado locutor esportivo.

Véspera de Natal. A cidade buscava aliviar as suas dores e enfeitava-se para a festa maior da cristandade. Devotos vestiam suas melhores roupas e subiam a lombada de chão cru para assistirem à Missa do Galo. A irmã Rosa persistia orando ajoelhada com o gasto rosário entre os dedos calejados. Batem à porta. Alguns vizinhos contam que uma senhora branca com dois meninos pelas mãos – um negrinho e outro menino com cabelos encaracolados – e saída donde ninguém sabia, batia à porta do casebre. Uma claridade da lua iluminava particularmente aquela casa. Adentrou à humilde morada. Retirou um grande e alvo lenço de seus ombros e cobriu Rosa, Prego e o outro negrinho. Os vizinhos continuavam a espiar. Um tempo depois. Contam que a viram subir aos céus “como se fosse para a Lua”. Outros juram tê-la visto entrar na grutinha de pedra. O certo − Prego milagrosamente amanheceu curado e caminhando à margem do arroio ir ajoelhar-se junto à gruta. Logo no Ano Novo buscou um seminário para se tornar um religioso. Alguém jurou tê-lo visto com uma camiseta vermelha sob a batina negra. E como tal foi um dos escassos padres negros que levou a mensagem de Nossa Senhora aos necessitados e perdidos do mundo. Acredita-se que Corisco atravesse os céus pelas mãos da Mãe Divina.

– E Rosa?

O amor persiste e derrama-se de seu coração e suas mãos ainda trazem conforto e felicidade numa dádiva que a idade jamais diminuiu.

 

Nota do autor.

Viamão, minha cidade natal, que cunhei ser a “primeira capital de todos os gaúchos”, pois foi aqui que de fato nasceu o sentimento pátrio dessa terra disputada por dois impérios e invadida pelos castelhanos do General Ceballos. Também é denominada de Setembrina dos Farrapos pelos eventos na maior guerra entre irmãos da pátria brasileira. É berço da família Oliveira que se confunde com o amor ao Sport Club Internacional. Cidade histórica adornada pela monumental Igreja com paredes de cerca de dois metros de espessura e embalada por suas histórias e lendas. Assim faço esse um mensageiro vivo do amor e da alma de seu autor e do respeito e admiração pelo grande amigo “seu Adão” Carlos Cunha e pelo meu pai Aldo “Cabeleira” Oliveira, cônsul colorado, apaixonados fiéis do nosso Internacional. Igualmente é um tributo à “dona Zulmira” Andrade que nos seus noventa anos, de negra e lavadeira no Arroio Mendanha, carinhosamente chamada entre abraços e beijos de gratidão como “mãe preta” e persiste derramando seu amor e atenção para crianças e demais pessoas.

 

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