Festa dos Mortos… Ou Festa da Vida? – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 03 Novembro 2015

 

2015 – 11 – 03 Novembro – Festa dos Mortos… ou Festa da Vida – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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Festa dos Mortos… Ou Festa da Vida?

 

D

ia dos Finados! Finado significa falecido, defunto ou morto e o dia dois de Novembro representa tradicionalmente uma data para que os falecidos sejam homenageados com flores, coroas, velas, missas, orações e prantos. Muitos prantos! Aqui nesse espaço, por vezes quase litúrgico, contamos como as pessoas se sentiam (e sentem) com o Vento Norte, esse vento morno que antecipa a data de Finados e todo o conteúdo emocional e simbólico, também supersticioso, que carrega em seu ventre. Minha avó Adiles – também avó da Áurea, da Maninha, do Baiar, do Negrinho, do Silmar – preparava com caiação primorosa, adornos de flores feitas à mão e naturais, todas as sepulturas dos familiares. Tenho na retina da alma sua imagem colhendo copos-de-leite junto à horta no fundo do quintal. Pranteava silenciosamente suas “perdas”, sem jamais deixar de encorajar a minha mãe (pela minha irmã Dilú – falecida) e auxiliar os amigos do Mendanha. Encham seu coração de mais amor relendo as histórias das lavadeiras do arroio Mendanha no site desse seu amigo e médico.

 

Crônicas & Agudas

 

As missas lotavam a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e tão logo o culto acabava outro começava – as pessoas em cortejo buscavam e desciam pela Rua Dois de Novembro que desembocava no portão principal do Cemitério. A juventude também se caracteriza pelas verdades passageiras e a dor logo arrefecia e os hormônios pululando nas veias encontravam os guris e as gurias ensaiando um namoro tão singelo quanto o canto do sabiá nos cinamomos da rua. Tendas e barracas vendendo de flores e coroas, um pouco de tudo, como pasteis carnudos com leve odor da querosene do fogareiro. Um sorriso e uma piscadela de olhos, talvez ou “que-tal”, prenunciava um namoro – a maioria como aqueles que acabam na quarta-feira de cinzas. Havia quem se apropriasse de uma bela rosa de alguma sepultura solitária e já pranteada para ofertar a alguma bela guria. Bela e bela!

 

Cr & Ag

 

O tempo, esse mestre inegociável e incorruptível, dá-nos a possibilidade, a chance, a oportunidade de mudanças de rota e aperfeiçoamento de nosso espírito. Cerca de 20 a 30% aproveitam e iluminam-se progressivamente. Vários de nossos amigos e amigas (e quantos parentes!) estão num outro plano existencial e, que mesmo para quem duvide ou desacredite, aguardando nossa chegada. Somos passageiros e devemos ser responsáveis por essa passagem existencial de amor ou de ódio. A meninez de nossos sentimentos e de nossos atos, até pecados, considerados por alguns, também é o curso da vida que se repete, mas que se renova. Que se abre em novos horizontes em que amaremos e teremos filhos do coração, não necessariamente do nosso corpo. O respeito à simbologia da morte, especialmente na cristandade, e o respeito aos mortos é a abertura, o introito magnífico da sinfonia da vida que se reergue e se renova e busca evoluir e aperfeiçoar-se.

 

Cr & Ag

 

Desde o primeiro instante do primeiro dia da Escola de Medicina os mestres nos ensinaram o respeito absoluto e inarredável ao morto. À sua morte que trouxe seu corpo para nos ensinar os segredos e os caminhos da saúde e da vida ali na pedra e no aço das mesas de Anatomia. Ali um morto anônimo, sem ninguém a levar-lhe flores ou acender uma vela branca em sua sepultura, entrega-se numa das mais divinas missões – tornar jovens em médicos, ou seja, adentrar um portal luminoso de Amor ao paciente e à humanidade. Finados… O Dia de Finados é gratidão, respeito e continuidade daquilo que veio do barro primordial e ao pó retorna, mas é a Vida do Amor e da Gratidão com Respeito aos nossos pais, irmãos, familiares, amigos e estranhos, como ao Cadáver da Mesa de Anatomia!

Oração ao Cadáver Desconhecido

"Ao curvar-te com a lâmina rija de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas; cresceu embalado pela fé e esperança daquela que em seu seio o agasalhou, sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens; por certo amou e foi amado e sentiu saudades dos outros que partiram, acalentou um amanhã feliz e agora jaz na fria lousa, sem que por ele tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece. Seu nome só Deus o sabe; mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir a humanidade que por ele passou indiferente."

Karl Rokitansky (1876)
Ao cadáver, respeito e agradecimento

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