2016 – 02 – 02 Fevereiro – Jejum Eletrônico – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
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Jejum Eletrônico!
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arguto e-leitor pergunta-se: – jejum ou abstinência? Abstinência pode desencadear uma conotação sexual e lembremo-nos do português que em “abstinência eletrônica” ficou traumatizado no seu tórrido amor por uma “secretária eletrônica” de olhinhos puxados, a Toshiba. Segue o baile. E jejum me parece mais religioso ou médico, talvez um ‘j’ de místico. Estamos mergulhados, imersos ou afogados em ondas invisíveis que nos trespassam de lado a lado e desencadeiam algum tipo de alteração. Outro se sente como ‘uma libélula 0800 no bosque encantado do carnaval’. Outros alegam que essas influências criam hordas de alterados, híbridos ou mutantes por tipo um zika vírus eletrônico. ‘Não levemos à ponta de faca’. ‘Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar’. ‘Talvez entre San Juan e Mendoza’. Gosto dessas expressões ‘englobativas e abarcantes’. O certo é que a overdose está aí. Há quem não viva a vida real estando afogada/o no mundo virtual, enredada como um golfinho numa rede social. Alegrando-se e rindo virtualmente enquanto esquece até do filho dentro do veículo.
Cr & Ag – Crônicas & Agudas
Há quem entre numa academia, num ginásio ou estúdio e inicie seus exercícios. Inicialmente muito dolorosos e sofridos. Uma hora por dia ‘out’ da parafernália eletrônica. Talvez na hora do sexo real se você ainda lembrar, acreditar e for adepto disso. Segure a bronca. Talvez um rivotril para as primeiras crises de pânico. Seja gente! De carne, osso e gordura. Talvez com um ‘personal trainner’. Uma autoajuda, certamente. Criar-se-ão grupos de terapia restritiva e de jejum eletrônico coletivo ou tribal. Radicais estarão de mãos dadas em volta de fogueiras orando pelo renascimento enquanto as chamas devoram tablets e smartphones. Pegue leve! A criatura está viciada na via digital. E por via das dúvidas tente-se a salvação. Ou a melhora do enfermo e obsidiado. Os primeiros dias são terríveis. Coloque telas nas janelas do apartamento e não deixe corda ou navalha a jeito. Nem certos sertanejos. Vencida a primeira semana de sua nova vida ou da vida que você esqueceu no umbral dos mortos-vivos, aumente as horas. Outra hora durante a refeição. Ou quem sabe durante a hora do passear com o cão ou de brincar com as crianças? Lembra que crianças existem e até brincam? Outra alternativa: abraçar ao vivo com cores e odores outro ser humano e conversarem uma hora sem nada eletrônico conectado. Claro que é difícil! Dá um trabalhão encontrar outra criatura como você agora.
Cr & Ag
Um colega mui macho dizia-se estar na pior TPM ininterrupta. Estabelecer esse mesmo plano de sobrevivência em todos os membros da família é quase como a paz entre judeus e palestinos. Não é impossível, mas é dureza. Principalmente tendo jovens na casa que aspira voltar a ser sentida como lar. Com o seu cão é bem mais fácil negociar. – Te corto a ração Corrupto! – ameaçou um amigo para seu pitbull. Outro amigo ganhou um canário belga do sogro, chamou-o de Alberto Youssef, não por ter custado em dólares, mas a criaturinha cantava na gaiola durante o Jornal Nacional ou quando recebia a visita de seus amigos advogados. Até num bichinho da paz a eletrônica invade seu ser. ‘Antes que a vaca tussa’ voltemos ao tema crucial de sobrevivência da espécie humana. E para seu jejum nunca use o alarme eletrônico do telefone. Uma amiga poetisa usa o por do sol para meditar e ausentar-se ou escapar das malhas da rede social. Outro colega abre e-mail uma vez por semana e somente abre o celular uma hora pela manhã e outra à noite. Alternativas. Caminhos para um mesmo destino.
Você vai descobrir que durante esse tempo de jejum eletrônico o sol continuou indiferente aos humanos e à Terra em sua jornada. A lua idem. A natureza estoicamente luta para sobreviver aos humanos e ao seu lixo, mas toca a vida. Aperceba-se – você continua vivo! V-i-v-o! Vi-vo! Somente jejuar. Controlar. Controlar-se.