2016 – 04 – 05 Abril – Pau de dar em doido – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
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“Pau de dar em doido”
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o ano da Esperança e da Sobrevivência de 1975, estava de plantão no Hospital de Caridade de Viamão quando chegaram dois bombeiros trazendo um companheiro desacordado. Contaram que a homem chegara em sua casa e encontrou a esposa num embate nos lençóis com outro homem. Depois de “um pega pra capar”, “sossega leão”, “essa mucreia não vale o que come”, “te escapa que tão pegando”, o cara surrou quem apareceu pela frente e, principalmente, por trás. E apagou. Como sempre, a ‘turma do deixa disso e quem te pede sou eu’ imaginou e configurou que o bombeiro tivesse um enfarte ou um ‘ameaça de derrame’. E trouxeram o homem para Viamão, certamente tentando escapar do plantão policial do HPS, Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre. Hoje o hospital não tem uma face principal –talvez nem secundária. Naquela noite o acesso era pela marquise. Colocado numa maca de ferro no antigo consultório do Dr. Wenceslau Vieira, comecei a atendê-lo. Outros dois colegas estavam no território apache, o Dr. Jones e o Dr. Peralta. Eis que a criatura começou a se agitar, apesar da medicação a agitação tornava-se mais e mais violenta. Mais de seis enfermeiros e a Irmã e os dois bombeiros não conseguiam contê-lo. E o vulcão detonou e destruiu literalmente todo o consultório e a portaria do hospital. Tentava-se evitar que fosse para as enfermarias infantis próximas dali. O surto psicótico aumentava. Um dos colegas chamou uma viatura da Brigada que fazia ponto ali no antigo Texaquinho (hoje Ipiranga, naquela época até no Texaco tinha brigadiano, hoje nem no Posto Ipiranga). Dois brigadianos chegaram no “qué que foi meu”. O primeiro atingido caiu nocauteado e o capacete, chamado pelo povo de ‘pinico’, rolou até o outro lado da rua. O segundo sacou do cassetete sem chance de usar. Apanhou até fugir. A Irmã havia ligado para a Brigada e solicitado o regimento inteiro com os reservas e mais o time do Tamoio. Em outros tempos o povo dizia que ‘foi a coisa mais linda de se ver’, era brigadiano descendo o cassetete e os ‘pinicos’ rolando. E como gaúcho não pode ver uma pauleira sem meter o bedelho, desceu uma turma do famoso “7 Facadas” que era um misto de tudo ilegal que poderia haver e todo mundo sabia. A maioria numérica venceu o bombeiro que apesar de algemado e atado como uma múmia parecia se soltar a qualquer momento. Colocado num camburão e levado ao São Pedro, que na época era hospício. Os sobreviventes dividiam-se entre fundilhos comprometidos, covardes bom de garganta, o pessoal do ‘nauseocômio’ e a turma que ‘desceu o pau’… e apanhou que nem boi ladrão . Contam, isso eu não vi, que no São Pedro foi outra balada com direito à vanerão sambado.
Crônicas & Agudas
Naqueles tempos crepusculares, alguns alegam que havia ditadura para uns e ‘ditamole’ para outros, o pau cantava de dar dó e aiaiai e uiuiui. E não precisa muito. Até colega de farda apanhava. Alguns mais religiosos queriam acrescentar um adendo ou parágrafo especial nos Mandamentos: – Jamais cornearás um bombeiro grande, forte e macho uma barbaridade. Um misto de gaiato e místico colocou isso no banheiro. Filosofia de banheiro é coisa que sempre merece reflexão, pelo menos enquanto sentados na situação de todos são iguais. Conta-se que um aluno indagou ao mestre nos introitos acadêmicos: – Mestre, como saberei de pronto se a criatura é louca ou não? O mestre do alto de sua sabedoria, mas louco de sono, respondeu: – Gafanhoto, se não comer estrume e não rasgar dinheiro, ainda pode ser sadio!
Cr & Ag
Outros tempos em que os cinemas enchiam para ver mocinho matando índio. Pensar hoje, dá cadeia sem direito a foro privilegiado. Duchas de água gelada eram usadas para tratamentos e para tirar “fêmeas do cio”. Um ditado viamonense: – Tomar choque no Cocão! – uma mistura dos choques com o bairro Cocão. O boneco ia para o famoso e temido porão da Oitava (delegacia) e apanhava da polícia e dos insalubres companheiros de cela. O pau-de-arara também tinha pau. Lembrei-me desse episódio de meu passado em que o Juramento de Hipócrates pesava bem mais que o “Money” sem a amizade das empreiteiras quando escutei na mesa ao lado: – Essa louca é pau de dar em doido, burra de dar dó, mas obediente ao chefe! Um som, um perfume, uma coisa qualquer faz partejar vivências quase esquecidas. E afloram!