2017 – 02 – 28 Fevereiro – Rescaldo do arroto – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
Rescaldo do Arroto! Lendas e realidades.
Conta-se que durante um evento importante, um magrão com perfil de hippie de esquerda perguntou ao emérito escritor Ariano Suassuna se ele também considerava o rock um som universal. O escritor encarou a criatura e a plateia fez silêncio: – Meu filho, som universal só conheço três: o espirro, o peido e o arroto! Foi para a história. Na eructante coluna anterior ficou claro que o nosso competidor venceu com folga o embate do maior arroto e somente não está no livro dos recordes porque o viamonense é uma criatura modesta, humilde nas suas glórias. O Ivécio casou e ficou cunhado do maior motociclista dessa terra sangrenta, menos pelas batalhas e mais pela carneação e churrasco de vala, o Luizinho Zavarize. Infelizmente Ivécio morreu jovem e hoje está no firmamento.
Crônicas & Agudas
Onde termina o homem e onde começa a lenda. Voltamos a ser uma terra de sangue, o sangue dos cidadãos caçados pela bandidagem. Era uma época que cada casa tinha uma arma. Era uma espingarda calibre 12, 16 ou 20 que também usada para as caçadas de marrecão e de marrecas, “enquanto aves”. Vários tinham revólveres e muitos portavam no dia a dia como o saudoso amigo Fraguinha, tio da doutora Varlete. Bom uma barbaridade, mas não se arredava duma escaramuça e não carregava desaforos para casa. Bandido não criava raiz aqui, desde os tempos do enérgico Capitão Ozório, Mércio, Alcione e passou pelo delegado Carivalli. Vagabundo temia a polícia. Viamão teve presídio onde hoje é o Banco do Brasil, depois às margens do Lago Tarumã (sem poluição) e aqui na rua 2 de Novembro, nas franjas do cemitério. Os presos até jogavam futebol e vôlei na mesma pracinha que eu e a gurizada.
Cr & Ag
Hoje criminoso é “vítima da sociedade capitalista e invasor é deserdado do campo”. Havia assaltos e crimes de todo o tipo, mas quem não morria pela mão da vítima e de sua família, nem da polícia, acabava no cadeião do Gasômetro. E muitos não voltavam de lá. Há quem respeite o que teme. Sentava-se nas noites de calor sufocante nas praças e com as casas abertas. Namorava-se na praça. Ia-se e voltava-se com toda a tranquilidade dos bailes no Clube dos Casados, hoje Juvenil (?). Brincadeira da gurizada era arrotar, soltar pião, jogar taco, nadar no riacho Fiuza, pescar no Lago da Tarumã, jogar futebol no matadouro dos Pinto, na descida da rua Pinto Bandeira ou do Darci da Cachaça. Mordida de cobra? Tinha soro na pecuária do Abidu Flores, hoje a criatura rola pelos plantões e pelos cubanos que ninguém provou que são médicos.
Cr & Ag
Arroto também era sinal de valentia. Numa bola dividida, as criaturas se encaravam e o que arrotasse primeiro e maior geralmente levava vantagem, sem cuspir no chão e passar o pé. Tinha uma velha na Lomba da Tarumã que arrotava carniça. Entende? Podia comer a comida do Lula e do doutor Khalil, ou do FHC, arrotava de espantar a cachorrada. E olha que cachorro aguenta até mendigo bêbado. Morava solita no topo da lomba. Nenhuma casa numas 50 braças. E ali sempre ventou muito. Um guri muito genial que ainda troteia por aí (não conto o nome para preservar os feitos) “comprava” o arroto engarrafado da velha. Sim, a velha arrotava numa garrafa de vidro e colocava uma rolha de cortiça. Quando ele estava renegado para aula, abria umas garrafas nos banheiros do Setembrina. Davam férias forçadas até desinfetar. A coitada até fazia gargarejos com creolina e malva-cheirosa depois de quase sufocar o grande doutor Emílio dentista. Nada adiantou. O desfecho foi cruel. Contam que o Elmo lacrou o caixão e internou três ajudantes intoxicados depois do velório de corpo presente e público ausente. Chega de arroto, por enquanto.