2017 – 02 – 21 Fevereiro – Um arroto viamonense – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
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Um arrotador viamonense! – fábula e realidade.
Em coluna passada afloramos uma lástima dos relacionamentos humanos – o arrotador, cuspidor, guspidor, o abusivo proclamador de suas ‘qualidades’. E lembramos do ótimo entrevero de imagens e cenas de uma Viamão esvanecida nas poeiras da história. E lembrei-me de um arrotador real. Os dicionários classificam arroto como eructação ou ventosidade expelida com estrépito pela boca e oriunda do tubo digestivo. Vamos por essa picada. A moda se repete. As belas voltaram a encantar-nos com as calças boca-de-sino, as ‘pantallonas’. Muitas com a cintura baixa – Saint Tropez. Era um Brasil que fervilhava com a Jovem Guarda e os jovens curtiam os ‘embalos de sábado à noite’ nas garagens das suas casas, nos avarandados praianos ou no Buraco do Padre. Como? Não sabe o que é o Buraco do Padre? Tudo bem, nem todos nascem simultaneamente ou curtem o Colorado. Na construção da Igreja da Viamópolis, após concluídas as fundações e a chapa de concreto que seria o piso da igreja, aquele imenso porão era usado pelo padre para festas, quermesses e reuniões dançantes. Há quem viu o padre cantando que “Vá tudo (de ruim) pro inferno”. Eu não vi. Ali lasquei umas cordas de guitarra enganando. Essa é outra lenda.
Crônicas & Agudas
Voltamos ao arroto. Sabe-se que arrotar após a refeição em certas culturas significa ter apreciado muito a comida e elogiar ao dono da casa e à cozinheira. Quanto maior o arroto, maior a satisfação. Um candidato escapou um arroto durante almoço na casa de um Goulart na Faxina. Isso foi ofensa. E da braba. O velho pegou o mango pendurado na guarda da cadeira e saiu lasqueando a criatura até a porteira. E quem quis apartar apanhou junto. Lenda? Não se elegeu. A gurizada entremeava um grito de Tarzan, o rei dos macacos, com um arroto saltando de um cipó ou de uma corda no ‘caudaloso’ rio Fiuza. Imitar Johnny Weismuller não era nada fácil, mas arrotar já era mais leve. E a coisa cresceu enquanto durou a ‘onda’. Outros mais ‘taludos’ esnobavam os menores.
Cr & Ag
O colega Zé Dubin foi um emérito negociante de gibis na praça da Borracheira e nas matinês do Cine Ideal, que pertenceu aos Toffoli, família do doutor Bruno, dentista. Sabe-se que ganhou uma sacola de gibis apostando no melhor e maior arrotador. Sim, até havia competição. O cara ganhava fama na Lomba da Tarumã e já desafiava o arrotador do campo do Tamoio. Meu primo Silmar era temido. Havia o Pelé dos arrotadores – Ivécio era o nome que embalava a temível criatura. Era um magrão das costas arqueadas que morava ali na descida do Tamoio. Um apoio elucidativo – Tamoio é um vitorioso e inconquistável time de futebol da Primeira Capital de Todos os Gaúchos. Uma lenda no esporte bretão, que por ciúme e temor da dupla da Grenal, foi caçado quase à extinção. O Ivécio fez fama e quase fortuna. Há uma lenda urbana que atribui ao Ivécio acordar o povo do Centro da cidade pela madrugada e correrem para a praça, pois algum gaiato propagou que seria terremoto.
Cr & Ag
Outra dessas inúmeras estórias sobre o maior arroto da grande Viamão (outra explicação: a grande Viamão compreende um território marcado ao norte por Laguna no Tratado de Tordesilhas, ao sul por Colônia do Sacramento, a oeste pelas missões castelhanas e ao leste pelo oceano Atlântico até aonde a vista não toca). Então “historiemo o causo”. O jornal Correio do Povo e as rádios Farroupilha e Guaíba mandaram repórteres. Escalaram de juiz do embate ao experiente e arguto Passarinho. O mostardeiro Panca foi observador internacional da Mostardas Press. E o povo se reuniu na praça Júlio de Castilhos, ali onde implantaram a Prefeitura mais tarde aproveitando o deslocamento de terra do combate. E de Carazinho, das corridas de cancha reta do Tio Brizola, veio um xiru, meio índio, meio castelhano, com cruza de bagual chileno. E na melhor de três (arrotos) do Ivécio derrubou o sino da torre da Igreja e deixou a centenária borracheira sem nenhuma folha. Duvidam? Ver ao vivo eu não vi, mas conto pela boca dos outros e tá aí o primo Haroldo que não me deixa mentir sozinho. E o Passarinho cantou a parada!